Neste capítulo trataremos das correlações entre as narrativas dissidentes nas redes e os acontecimentos das ruas. Situaremos esta imagem ativista no Instagram e suas características formais, informacionais e contextuais. A função e a forma bidimensional do artefato gráfico dessas imagens guardam semelhanças a dos cartazes ativistas de outros períodos históricos, reforçando a relevância dessa produção estética como parte da memória gráfica e da cultura visual brasileira contemporânea. Apresentaremos, primeiramente, uma categorização das narrativas do Instagram, que conduziu a pesquisa para a problematização desta imagem ativista pela ótica do design.
Area: A imagem no design
Calendário Dissidente
Narrativas visuais no Instagram
As narrativas visuais no Instagram representam uma nova linguagem visual da cultura digital contemporânea. São imagens relacionadas ao cotidiano e aos afetos. Representam a estetização do self e de um ideário de vida. Participar de uma comunidade de “amigos” na rede gera engajamento relacionado aos acontecimentos mundanos que nos comovem e nos afetam diariamente. O envolvimento com a produção, mediação e distribuição de imagens como uma atividade cotidiana pode representar sobre o que somos, sobre o que acreditamos e lutamos (virtualmente).
A representação estética do usuário do aplicativo na rede e as potencialidades de criação de linguagem foi o tema da dissertação de mestrado “Imageria e poéticas de representação da paisagem urbana nas redes”, defendida em 2016, sob orientação de Giselle Beiguelman no departamento de Projeto, Espaço e Cultura na FAU-USP. Naquela pesquisa, o objetivo era justamente explorar as potencialidades do uso das imagens do Instagram para a produção de narrativas visuais e mapeamentos psicogeográficos da cidade. O recorte dessas imagens poderia ser inserido na categoria “arquitetura, ambiente e paisagem”. Durante a análise utilizou-se a metodologia de visualização de dados vinculados a lugares, geolocalização e público da rede, como fotógrafos, artistas anônimos e cidadãos em geral. A observação de diversos perfis e a edição de imagens das hashtags #ciclovianapaulista, #parqueminhocao, #copan, entre outras, foram os pontos centrais para a curadoria e criação das narrativas visuais da paisagem urbana nas redes.
O resultado prático da dissertação alavancou a continuidade da pesquisa no campo da cultura visual das redes a partir do viés do design de comunicação. A tese dá continuidade à análise das imagens no Instagram, ampliando os campos multidisciplinares que consideram outros quesitos analíticos da imagem informacional: o contexto sociocultural, a experiência e a participação do usuário, a memória e o fato que a imagem representa e a produção de novas estéticas. Essas análises serão discutidas ao longo dos tópicos seguintes a partir do experimento gráfico Calendário Dissidente.
A fim de melhor compreender a domesticidade da produção de linguagem do Instagram e, sobretudo, estabelecer uma coleta de dados representativa da evolução do design gráfico na contemporaneidade, realizamos um pré mapeamento de todos os tipos de postagens. Esse levantamento empírico, resultou em uma classificação de cinco “grandes categorias”. A categoria “arquitetura e paisagem” pode ser considerada uma subcategoria, pois está vinculada à experiência de deriva do usuário (pessoa física) ou do reforço institucional e ou comercial das narrativas institucionalizadas. Arquitetura e natureza são itens de “consumo”, de “estilo de vida” e de reforço de branding. Abaixo detalhamos tais categorias:
1) Imagens identitárias
A primeira categorização de imagens pode ser lida na chave do lúdico e do narcísico. São imagens que trazem questões identitárias – ou o que gostaríamos de projetar como imagem do nosso self. São retratos de família e amigos, selfies (e looks), viagens, pratos de restaurantes, gatos, cachorros de estimação, capas de álbuns de música do Spotfy, imagens da paisagem urbana, da apreensão estética cotidiana. São imagens-mensagens que tecem um jogo de memória e de afeto entre os envolvidos. Boylan (2020) denomina essas imagens como uma “visão pessoal”, na qual os usuários das redes buscam criar intimidade, identidade, senso de comunidade entre seus pares.
2) Imagens ativistas
A segunda categoria diz respeito sobre o que acreditamos e lutamos no campo sociopolítico. São imagens-mensagens inseridas no contexto atual em que vivemos, que estão vinculadas aos acontecimentos diários no Brasil e no mundo. São fatos que nos afetam diretamente ou indiretamente, mas nos chamam à participação ativa, nas redes (para muitos) e nas ruas (para poucos). Podem ser interpretadas na chave do ativismo dissidente e envolvem questões relacionadas à cidadania e à polis, além do nosso engajamento diário com o mundo contemporâneo no qual vivemos. Como vimos, esta categoria ativista será o recorte da coleta de dados (imagens) da tese, pois concentra a grande produção e imagens-mensagens, identificadas nessa pesquisa como os cartazes digitais, conforme pode ser visto no Calendário Dissidente. Elas representam levantes poéticos e manifestações estéticas em diversas linguagens visuais no campo do design gráfico (desenhos, ilustrações manuais, fotos, colagens, imagens vetoriais, posts tipográficos). Ver #ativismo:ruas e redes.
3) Imagens portfólio e galerias pessoais
A terceira categoria, está relacionada ao uso do aplicativo como galeria e portfólio de artistas, ou aspirantes. Há várias narrativas autorais de trabalhos extremamente poéticos que apresentam essa outra vocação dessa rede social. O número de artistas gráficos, artistas visuais, músicos, bailarinos e atores que utilizam o Instagram para expor seu trabalho profissional aumentou exponencialmente após a pandemia. Impedidos de apresentar suas produções de modo presencial, as estratégias artísticas de captação, reprodução e publicação de trabalhos nas redes representam um conjunto significativo de imagens estáticas e fílmicas. Dentro dessa categoria, podemos incluir as narrativas focadas na divulgação de exposições, processos criativos, cursos nos quais esses artistas estão participando. O Instagram é o lugar de apresentação do trabalho e de divulgação de narrativas que reforçam o conteúdo e o processo artístico. Podemos incluir nessa categoria as imagens que divulgam o repertório, o contexto e o processo criativo, ampliando a intimidade do espectador com determinado artista.
4) Imagens portfolio e galerias institucionais
A estratégia visual desta categoria guarda semelhanças com os portfólios pessoais, sobretudo as instituições museológicas, os centros culturais e algumas empresas de diversos segmentos. O setor cultural teve seus espaços físicos fechados por meses por conta da pandemia e tiveram que rever sua abordagem comunicacional e museográfica com o seu público, explorando o Instagram como lugar expositivo. Essas narrativas, porém, carregam um viés mais politizado e polido, seguem o propósito de determinada instituição e guidelines do branding – guias de uso de aplicação de identidade visual e indicações de linguagem para uso de imagem e textual – de determinada instituição. De certa maneira, oferecem uma cultura visual filtrada pela curadoria e pela sua visão de mundo.
Com mais recursos, algumas instituições investiram em tecnologias informacionais, proporcionando visitas aos seus espaços expositivos físicos, via vídeos interativos em 360º, com uso de realidade virtual e outras atividades interativas, ativando o espaço do museu no aplicativo, ampliando assim a conversa com o público. Nesse contexto, emergiram novos modos de expor e a oportunidade de usar a rede como espaço de engajamento cultural.
As empresas e o mundo corporativo também tiveram que criar estratégias para as redes. Algumas postagens seguem os guidelines da marca, mas muitas delas poderiam ser classificadas entre as galerias pessoais e as imagens comerciais, pois não abraçam uma pauta com conteúdo e propósito mais aprofundados que exigiria um design e uma narrativa mais planejada, para além das lives e posts com retratos coloridos das pessoas que “fazem acontecer” na empresa ou no setor. Há muito o que ser explorado e aprimorado em termos de design de comunicação, mas não entraremos nesse assunto.
5) Imagens comerciais
Esta categoria se utiliza das quatro anteriores para criar storytellings específicos, as direcionados especialmente para o perfil daquele usuário no aplicativo. Afinal, ela teve acesso aos dados de tudo o que você gosta, dos lugares que frequenta, do que você faz e consome na sua hora de lazer. Ou seja, essas imagens invadem o seu feed para colaborar com a “branditização” da sua vida, sugerindo marcas de roupas, sapatos, carros, hotéis, passagens aéreas, cursos etc. A comunicação por meio de imagens sobrepõe outras linguagens, acrescenta outras camadas narrativas à literatura, às artes, à memória e ao comportamento sociocultural do homem contemporâneo, moldado pelo uso de um dispositivo móvel, um smartphone. Criamos e trocamos imagens velozes, feitas para viajar em tempo real, imagens “ruins” ou pobres, como afirma Steyerl (2009). Imagens ricas e desprendidas de hierarquias, instituições, códigos pré-estabelecidos. Estamos operando nossa comunicação cotidiana por meio de outros códigos, reconhecidos entre nossos pares.
Há uma mudança permanente e contínua dos significados das imagens que viajam nas redes sociais. Uma imagem documental – veiculada nas plataformas Instagram ou Facebook – que pode ganhar novos significados quando mediada, apropriada e publicada em outro contexto narrativo. O jogo de adição, subtração e edição manipulado pelas ferramentas tecnológicas caracteriza a linguagem gráfica dessa imageria. Esses agenciamentos envolvem coautoria, colaboração, curadoria e, muitas vezes, apropriação de imagens documentais, de obras de arte famosas, imagens de seriados Netflix, quadrinhos, fotos icônicas de personagens da cultura pop. Trata-se de uma composição e edição de imagens fragmentadas, que juntas geram um fluxo informativo, visual, cinético e narrativo. O viés cinemático dessas composições com imagens heterogêneas é bastante relevante para entender as novas potencialidades do design de narrativas a partir da lente móvel. A imagem informacional das redes é híbrida, metamórfica (RANCIÈRE, 2013), e passa a assumir novas funções quando deslocadas e inseridas em montagens digitais, como vemos, por exemplo, nas imagens ativistas relacionadas aos acontecimentos no Brasil e no mundo – imagens sobre a Amazônia, os memes relacionados à desastrosa política de Bolsonaro, e a sofisticada produção de ilustrações digitais relacionadas ao momento político atual. Ver Calendário Dissidente.
Operações de linguagem
A tênue fronteira entre o real e o documental das narrativas com imagens de banco de dados parece ser um dos pontos centrais. Em outras palavras, o termo “fake images” – cunhado por Manovich (2001) para descrever as montagens e composições de imagens digitais, realizadas por computadores e diversos softwares e aplicativos – representa a natureza de muitas imagens que circulam nas redes.
O termo “fake”, que no contexto usado pelo autor, não pode ser traduzido por “falso”, é empregado para conceituar a estética das sequências de imagens em movimento em composições digitais. O autor aponta a edição e a montagem como a chave das tecnologias do século XX e XXI para criar novas realidades. O fake está relacionado à criação de uma nova linguagem imagética, à estética da dissonância de estilos, à nova semântica e novas trocas emocionais entre diferentes elementos materiais.
As estratégias de edição apontadas por Manovich (2001) envolvem uso de banco de dados e resultam em novas formas estéticas, não podendo ser confundidas com fake news – termo empregado para designar notícias falsas da internet, manipulação e montagem de televisão, política partidária, etc., muito embora o procedimento técnico de montagem das imagens, possa ser o mesmo. Sugerimos, nesse contexto de montagem e assemblage, a adoção do termo “imagens ficcionais” na medida em que se trata de imagens reapropriadas para um fim artístico (mesmo que as imagens originais representam um fato ou objeto real, ou seja, imagens documentais). Da mesma forma, o termo “depth image” (VAN ESSEN, 2020) atualiza os procedimentos de colagem e edição escritos por Manovich com o auxílio de imagens geradas e interpretadas por inteligências artificiais. Ver Imagem deepfake.
Ao elucidar conceitos relacionados à cultura digital, Manovich (2001) traça um interessante paralelo com teorias aplicadas ao cinema e traz referências icônicas como o filme Man with a moving camera de Dzigo Vertov (1929), para ilustrar seus conhecimentos sobre as novas mídias. A multiplicidade de ações e procedimentos práticos e estéticos realizados no cinema de Vertov serve como exemplo para conceitos como composição digital, montagem, signos móveis, hierarquia de camadas dos objetos de mídia, interface e conteúdo, sistemas operacionais, linguagem de programação e novas estéticas e procedimentos (MANOVICH, 2001, p. 243).
Os procedimentos de copy e paste usados por Vertov (1929), assim como a repetição e o loop de imagens, tão usados nos filmes – e explorados pelo cineasta –, preconizam o GIF, formato extremamente utilizado na internet nos dias de hoje, no qual a compactação de imagens sequenciais resultam em uma imagem cinética. Fenômeno similar também ocorre na visualização de imagens heterogêneas quando visualizadas a partir da mesma hashtag temática do Instagram. Ver imagem GIF.
A sequência de imagens montadas em uma sequência cinética, ou visualizadas por meio da programação de dados, nos aplicativos, alteram o fluxo linear das narrativas. Assim, vemos que decodificar o mundo por meio de imagens manipuladas é relevante para o estudo das novas mídias: “as narrativas das novas mídias e as novas interfaces podem explorar novas possibilidades de composição e estética oferecidas pelos bancos de dados dos computadores” (MANOVICH, 2001, p. 10). O uso criativo e as diversas formas de usarmos imagens de banco de dados e uso de inteligências artificiais para produção estética são assuntos tratados em Aprendizagem de máquina e subjetividade.
Estabelecendo um recorte: as imagens ativistas
Retomando uma das categorias em que apontamos objetos de recorte para análise, nota-se que o conteúdo da mensagem das imagens ativistas se apresenta como o elemento central para organizar a manipulação de imagens e seus objetos visuais e verbais em diferentes técnicas. Como a quantidade de recursos e a manipulação de softwares e aplicativos é infinita, cabe aos designers e artistas saberem usar e misturar dados em novos formatos em pró de um discurso visualmente mais impactante. O desafio é justamente manter o fio narrativo em torno de uma comunicação visual, na qual a composição, a montagem e o encadeamento de imagens são essenciais para garantir a compreensão do argumento.
Estética da adição
As regras são claras: apropriar, copiar, colar, deslocar, codificar, juntar, subtrair, até depurar e finalizar. O principal desafio, na chave do design, parece ser descobrir novas formas de compor e contar uma história, considerando a dinâmica na imagem (o movimento das diversas formas de composição visual) como um elemento central na construção da subjetividade narrativa. A leitura de sequências de imagens dispostas lado a lado na tela do aplicativo Instagram, quando visualizadas por meio de hashtags, também é desafiadora, pois são imagens completamente heterogêneas, oriundas de diversas fontes e produzidas por diferentes autores.
Essas imagens documentais e “reais” são aglutinadas em torno de uma palavra-chave e estão subordinadas a este código escrito. A leitura dessa sequência de imagens juntas gera novas interpretações e outros significados a essas imagens “manipuladas” pelo código. Ou seja, dentro desse contexto temático da busca do algoritmo, tornam-se imagens ficcionais, pois se deslocaram e agora pertencem a uma nova operação de linguagem com imagens digitais, especificamente de banco de dados.
Os cineastas Godard e Eisenstein são boas referências cinemáticas para entendermos a estética do GIF, dos clipes, do “InstaStories”, do Snapchat, TikTok e outros formatos de audiovisual expandido. O conceito de imagem expandida nos ajuda a entender a hibridação desses meios nessas colagens audiovisuais nas quais a edição computacional opera a manipulação e a junção das imagens estáticas e fílmicas, mescladas em uma mesma narrativa (Santaella, 2003). Em O Destino das imagens (2013), Rancière faz referência ao filme Histoire(s) du cinéma, de Godard, para apresentar o conceito da “frase-imagem”. A narrativa do filme se dá pela justaposição de imagens heterogêneas, editadas a partir de imagens aleatórias dispostas lado a lado. Desta maneira, formam uma mensagem a partir dessa narrativa composta por imagens fragmentada, uma frase-imagem (RANCIÈRE, 2013).
Esse conceito se aplica às narrativas visualizadas a partir das imagens de banco de dados. Nesse caso, a visualização da frase-imagem é organizada em torno da palavras-chave, em um contexto em que as imagens estão subordinadas a um código escrito, um metadado, que passa a ser mais que um dado numérico: ele é a peça-chave da construção narrativa em redes como Instagram e Facebook. Nesse ponto, concordamos com a visão de Falci (2012) e Manovich (2018), para quem os metadados permitem que o computador recupere informações e as organizem em um conjunto de imagens que remetem a uma narrativa de autoria compartilhada, em determinada interface, como o Instagram, no caso. Ou seja, a narrativa visual da qual estamos tratando obedece a uma lógica inversa à lógica da narrativa textual (literária), na medida em que os fragmentos colocados lado a lado, na maioria das vezes são aleatórios e não estão dispostos em uma sequência lógica, não obedecem a um enredo preestabelecido, mas constroem a poética narrativa das redes.
Cultura regenerativa e remixada
O procedimento de adição de imagens de diversas fontes (de autoria muitas vezes desconhecida) em um remix de imagens apropriadas que caracteriza a cultura global atual. Estas novas formas de produção de linguagem, colaboração e coletividade fazem parte do processo criativo. Essas apropriações também são realizadas por meio de uso de imagens ficcionais manipuladas pelas inteligências artificiais. Ver Imagem deepfake.
Para Eduardo Navas (2016), não podemos pensar em criatividade sem considerar a adição de imagens de várias naturezas. O autor utiliza o termo “regenerative remix” na qual a efemeridade do uso de imagens, texto e som digitalmente produzidos e reproduzidos e eficientemente arquivados em dados podem ser usados para diversas propostas criativas. Este conceito também diz respeito à conectividade, ao uso dos dispositivos móveis, câmeras de celulares e ao fluxo constante de informação trocada nas redes sociais e na web. O autor resgata a figura do DJ como a figura desse homem contemporâneo, produtor de linguagem – ícone analisado por Bourriaud em Radicante (2011).
Nesse sentido, as mídias sociais podem ser consideradas parte do remix regenerativo, em termo de discurso, pois não há um formato específico para definir as manifestações de linguagem. Elas acontecem quando um elemento é reciclado de uma forma que seja reconhecível em uma nova proposta visual ou auditiva, disponível em um formato digital. A reciclagem desse material disponível nas redes é a principal característica da cultura regenerativa. O upload constante e as postagens dos usuários são centrais para que as atividades artísticas aconteçam. Ou seja, o design de narrativas com imagens do banco de dados depende da produção coletiva e colaborativa das redes sociais. Na chave da cultura regenerativa, conseguimos ilustrar como se dá a produção dessas imagens-mensagens pelos cidadãos engajados com os temas e as manifestações ativistas. Com os mesmos objetos materiais (imagens, textos, vídeos que circulam nas redes) e com as mesmas ferramentas digitais (softwares para ilustração digital, câmeras e scanners nos smartphones e as funções e filtros de “embelezamento” e edição disponíveis nos aplicativos), os “DJs/designers ativistas” conseguem produzir infinitas combinações e composições gráficas. E, na prática, adicionam novos fragmentos às narrativas visuais contínuas, com uploads diários de milhares de posts por dia.
Navas (2016) explica que as novas manifestações de linguagem da cultura regenerativa acontecem quando um elemento é reciclado de uma forma que seja reconhecível em uma nova proposta visual. Na sua visão, “as mídias sociais podem ser consideradas parte do remix regenerativo, em termos de discurso. Esses se alimentam constantemente do fluxo de imagens e textos e áudios das redes sociais” (Ibid p. 101-105), e na prática, constituem narrativas fragmentadas e contínuas, com uploads diários e milhares de posts por dia.
Notamos que as operações informacionais e criativas que ocorrem na produção cotidiana de uma imagem-mensagem resultam em uma peça gráfica misturada e apropriada, por meio de diferentes intervenções: uso de colagens de ilustração vetorial e fotografias; uso de escritas manuais (tipografias digitais ou desenhadas a mão), escaneada e trabalhada como ilustração digital; uso de fotografia documental e de linguagem verbal. A prática regenerativa também é evidenciada em posts nos quais há uma apropriação visual explícita. O remix de imagens de fontes e de linguagens diferentes reunidas em uma mesma produção artística é uma das características principais deste vocabulário estético.
Cultura visual urbana e imagens informacionais
Para ampliar os conceitos de cultura visual digital e estética de banco de dados fundamentados por Manovich (2018), Navas (2016) e Vesna (2007), cabe mencionar um outro experimento gráfico que norteou o projeto da tese e a definição do tema da pesquisa. Grafite e pixo: jogos estéticos urbanos [Sidenote: 1. O audiovisual Grafite e pixo: jogos estéticos urbanos foi realizado por Didiana Prata, Loren Bergantini, Luciana Paulillo e Sergio Venancio para a disciplina Processos experimentais em design visual, ministrada pelas Profas. Clice Mazzilli e Cibele Taralli no curso de Pós-graduação em Design, na FAU-USP, em 2017. Disponível em https://youtu.be/i-DpRJSNDv0.] elucida a vocação da transformação das imagens factuais das redes em narrativas de caráter ficcional, na medida em que se transformam em estratégias artísticas de visualização de dados com o objetivo de criar uma narrativa crítica sobre determinado assunto.
O audiovisual consiste numa colagem polifônica de experimentos de criação de narrativas com imagens de banco de dados, criados em contraposição ao Programa Cidade Linda, lançado pelo prefeito de São Paulo, João Dória, em 2 de janeiro de 2017. Esse episódio político é emblemático na medida em que elucida aspectos fundamentais relacionados à produção de linguagem no espaço urbano e demonstra a arbitrariedade no julgamento do que é considerado arte urbana para o então prefeito. Uma lei municipal passou a considerar ilegal a atividade do grafite e os artistas, grafiteiros e pixadores, criminosos. Como ação repressora e midiática a prefeitura apagou uma série de trabalhos emblemáticos na paisagem de São Paulo, substituindo-os por uma fina camada de tinta da cor cinza. A produção de arte urbana, como exemplo de manifestação política e sociocultural dá algumas pistas para um mapeamento etnográfico de diversas partes da cidade de São Paulo, onde a presença do pixo, é vista como expressão transgressora da população marginalizada, da periferia; e a do grafite, como produção mais planejada para acontecer em determinada superfície (muro, parede, pilastra, empena cega da cidade).
O audiovisual Grafite e pixo: jogos estéticos urbanos explora algumas operações de linguagem e traz uma série de experimentos nos quais designers, programadores e vídeo-artistas exploraram alternativas de usos e desdobramentos das imagens apropriadas. Questionam a institucionalidade da arte, a cidade como interface e a representação do espaço urbano e do grafite e do pixo na cidade, por meio de imagens produzidas e veiculadas por cidadãos. Ou parafraseando Rancière, por artistas anônimos que representam a estética cotidiana e a partilha do sensível (RANCIÈRE, 2005).
Nesse experimento, notamos que a hashtag é responsável pelo deslocamento da imagem em um contexto de montagem que se assemelha às técnicas do cinema e da imagem expandida. O viés cinemático dessas composições com imagens heterogêneas, capturadas por banco de dados se mostrou relevante para entender as novas potencialidades do design gráfico e da imagem mobile. Ao agenciar os experimentos que compõem as narrativas de adição e subtração e apropriação no Instagram, o autor (designer, artista ou usuário da rede) participa do jogo de construção da cultura regenerativa com imagens das redes.
O objeto da tese
A experiência de traçar um diálogo entre referências teóricas e um experimento gráfico instigou a elaboração de uma análise crítica e a prática do design como meio e ferramenta. Foi uma experiência essencial na definição do problema da tese e na criação do experimento gráfico Calendário Dissidente.
Constatamos a interdependência da indexação, do código escrito – da palavra-chave associada à imagem – e a visualização desta na rede. E verificamos como os algoritmos são elementos condicionantes para a visualização de um conjunto de imagens temáticas e como modulam experiências visuais específicas, relacionados a este agregador/legenda aplicada pelo usuário na hora da postagem.
A reciclagem do material disponível nas redes é a principal característica da cultura regenerativa (NAVAS, 2016). O upload constante e as postagens dos usuários são centrais para que as atividades artísticas aconteçam. Ou seja, o design de narrativas com imagens do banco de dados depende da produção coletiva e colaborativa das redes sociais. Trabalhos artísticos que abordam paradigmas políticos e socioculturais – pautando temas como meio ambiente, política, decolonialismo, feminismo entre outros – tratados recentemente por artistas e instituições brasileiras e internacionais, se alimentam constantemente do fluxo de imagens e textos e áudios das redes sociais.
O recorte da pesquisa: as hashtags dissidentes
A pesquisa faz um recorte temporal e temático para a coleta de dados por meio das hashtags ativistas. A primeira fase consistiu na coleta de imagens da produção estética do Instagram relacionada à representação imagética de grandes eventos e manifestações culturais, sociais e políticas no Brasil. A coleta de dados iniciou-se com a prisão do ex-presidente Lula em abril de 2017. A partir de então, foi feito um acompanhamento específico das hashtags #elenão, #designativista, #desenhosopelademocracia, #coleraalegria, e #mariellepresente durante o período de maior volume de produção imagética – entre o primeiro e o segundo turno (5 de outubro de 2018 a 5 de novembro de 2019).
Consideramos que essas hashtags sejam as mais representativas das dissidências, criadas por acontecimentos específicos que marcaram esse período de polarização política. Por meio dessas narrativas informacionais e híbridas (no sentido de reunirem características formais e funcionais do campo do design, da comunicação, da tecnologia, da cultura e da política), apreendemos apoética e o caráter coletivo dessas imagens-mensagens e a potencialidade do tema de pesquisa.
Após o acompanhamento diário das postagens com essas hashtags, envolvendo primeiramente a análise cognitiva das narrativas, iniciamos o esboço de uma estratégia projetual a fim de traçar uma metodologia para o trabalho.
Além da metodologia de banco de dados, utilizamos o software livre Stogram para download de todas as imagens postadas no Instagram pelas hashtags escolhidas:
- #lulalivre (32.731 postagens em 24 horas) – relacionada à prisão do ex-presidente Lula em 14 de abril de 2017;
- #mariellepresente (736.000 imagens em 365 dias) – imagens capturadas desde o dia 14 de março de 2018, data do assassinato de Marielle Franco, então vereadora do Estado do Rio de Janeiro – até completar um ano da sua morte, em 13 de março de 2019;
- #elenão – captura das imagens produzidas no dia das manifestações nacionais “#elenão”, em 29 de outubro de 2018.



O processo de coleta e visualização dessas imagens, assim como a criação dos experimentos visuais decorrentes dessa imageria e o uso de inteligência artificial para a classificação de uma amostragem de mais de um milhão de imagens, serão explicados e aprofundados nos próximos capítulos.
A imagem-mensagem
A imagem-mensagem pode ser considerada um artefato gráfico pela ótica do design. Os estudos em torno deste campo na atualidade incorporam uma visão multidisciplinar e nos ajudam a entender como a sociedade absorve aspectos socioculturais e tecnológicos para criar e ao mesmo tempo refletir e se representar por meio do design de comunicação.
As teorias propostas no final do século XIX Peirce (1999) e, posteriormente, por Barthes (1978), sobre a interpretação dos signos na imagem, são amplamente usadas em análises da imagem fotográfica. Entretanto, estando ciente da relevância da semiótica para este fim, optamos por analisar as imagens desta pesquisa por perspectivas que contemplassem outros atributos destes objetos: o design gráfico, a tecnologia envolvida na operação de criação e circulação dessa imagem e o contexto social e participação contínua dos usuários no processo de criação e recepção. A partir desses paradigmas, adotamos o termo imagem-mensagem para designarmos esse objeto central da tese, as imagens informacionais produzidas, mediadas e veiculadas nas redes.Em razão da natureza dessas imagens, classificá-las e analisá-las com base em uma única linha de estudo não cobriria o amplo espectro dessas imagens metamórficas – denominação de Rancière (2013) para imagens que possuem múltiplas funções inerentes aos ambientes midiáticos as quais circulam, configurando novas visualidades. Trata-se de peças gráficas, estáticas ou animadas, produzidas para circular em ambientes virtuais.
Definimos esta peça gráfica virtual e informacional como manifestações que carregam em sua mensagem visual e verbal elementos que vão além do estritamente formal ou iconográfico, pois representam e traduzem, nas redes, o que ocorre na esfera pública, na polis. São peças gráficas criadas no calor dos acontecimentos sociopolíticos, que representam manifestações coletivas, ativistas de diversos grupos. Esses minicartazes guardam forte relação com os cartazes ativistas de outros períodos históricos e remetem à tradição cultural dissidente de utilizar esta interface gráfica bidimensional como veículo de comunicação em manifestações no mundo todo.
No contexto da comunicação em redes, esta prática é revisitada e atualizada por meio da produção e circulação de cartazes ativistas nas redes. No campo comunicacional e no ambiente das redes sociais, este tipo de imagem é chamado de card. Aqui, a denominamos como imagem-mensagem devido às suas características formais e contextuais. É uma imagem efêmera, imbricada com o comportamento do usuário no Instagram, com suas ações e seus afetos. Representam manifestações poéticas, ideologias e desobediências.
As imagens ativistas visualizadas por meio por meio de hashtgas temáticas ilustram uma diversidade de linguagens. São pequenos objetos gráficos e interativos, compostos por informações textuais e visuais (fotografias ou ilustrações) resumidas e de fácil compreensão, publicados no formato quadrado, padrão dos aplicativos, sobretudo do Instagram. Nativa da era das redes, esta peça digital representa um artefato material e gráfico (FARIAS; BRAGA, 2018) e ilustra a linguagem remixada da cultura regenerativa das redes (NAVAS, 2016).
Para além da sua potencialidade comunicacional, este artefato representa um objeto de linguagem semântica. Para compreendê-lo, precisamos ver além do que se vê. Ou seja, entender o funcionamento dessa visualidade e o contexto no qual foi criado. O designer e pesquisador Enric Jardí assinala, a partir da semiótica de Peirce (1999), algumas estratégias de análise no qual podemos identificar diferentes jogos de linguagem em uma imagem: metáfora, metonímia, hipérbole, alegoria, conotação, ícones, códigos, símbolos, índices (JARDÍ, 2014). Essas operações, somadas a outras linhas de estudo, como a cultura do design (JULIER, 2006) e a cultura visual (MIRZOEFF, 1999; MENESES,2003), contribuíram para a análise das imagens-mensagens expostas no Calendário.
O experimento gráfico Calendário Dissidente foi concebido como interface gráfica para reunir nosso banco de dados. Essas traduzem um contexto político, social, cultural, antropológico e econômico de uma época. Ou seja, falamos de imagens que devem ser lidas a partir de um recorte temático e temporal e de forma sistêmica.
Em uma primeira análise cognitiva, podemos afirmar que as imagens que circulam nas redes representam produções gráficas heterogêneas. São compostas por imagens factuais, ilustrações manuais ou digitais e pelo uso da linguagem verbal, por meio de textos compostos manualmente ou, na maioria das vezes, digitalmente. Neste caso, as tipografias usadas são as fontes disponíveis nos aplicativos do celular. As possibilidades de interferências gráficas sobre uma imagem, realizada pelo usuário por meio de softwares de edição, oferecidas como “ferramentas de design” nos próprios aplicativos do celular, potencializam intervenções variadas. A prática de apropriação imediata de imagens de outros usuários das redes ou de representações de outros períodos históricos, disponíveis em uma simples busca nos smartphones, é uma das características mais marcantes na composição deste artefato gráfico. São imagens feitas para viajar, imagens pobres (ou ruins), devido a sua baixa resolução, o que propicia o compartilhamento entre os usuários das redes (STEYERL, 2009).
Em Fragmentos da imagem fotográfica na era digital (2020), Rubinstein argumenta que pensarmos a respeito da imagem contemporânea hoje exige, obrigatoriamente, a ampliação das fronteiras em um sistema metafísico, numa constelação onde “algoritmos”, “ecologias”, “novo materialismo”, “fragmentos” e a “holística” podem ser reconhecidos como os elementos centrais: “os modelos representacionais do conhecimento não são mais estáticos, não obedecem a uma realidade objetiva e rejeitam as premissas da representação e do pensamento ocidental baseado nas relações sujeito-objeto, imagem e coisa, forma e conteúdo, identidade e diferença, substância e essência”, continua o autor (RUBINSTEIN, 2020, p. 2).
Estamos diante de um léxico de linguagem cujas significações imagéticas extrapolam as funções das imagens documentais jornalísticas, das ilustrações usadas como apoio comunicacional ou dos cartazes impressos, criados por manifestantes (designers ou não), para serem visualizados sobre superfícies planas e estáticas. As imagens-mensagens são elaboradas para representar conteúdos específicos, sujeitos às transformações ao longo do processo de circulação e de engajamento do público. Essas constituem um meio de comunicação das classes desobedientes na atualidade.
Também podemos adotar o termo “desobediência”, no sentido pensado por Frédéric Gros (2018) para caracterizar essas imagens. Ele nomeia “narrativas políticas dissidentes”, aquelas que se recusam a obedecer a uma ordem com a qual não concordam. São conteúdos que reivindicam resistência, transgressão e direito de manifestar e não se conformar. Para o autor, a ação de desobedecer passa a ser uma condição ética do sujeito político. Nesse sentido, produção de linguagens emergentes em momentos nos quais os homens desobedecem, exercitam discursos, passeatas, peças teatrais, panfletos, posts contra a tirania, estão imbuídos de um pensamento político. Devido à velocidade pela qual os discursos se manifestam, pode ficar difícil identificar o objeto de indignação das linguagens artísticas. Este fenômeno é chamado de “deslocamento do ponto de cólera” por Gros (Ibid, p. 17).
Seguindo esse raciocínio e analisando a repercussão e o engajamento das imagens postadas durante o período eleitoral sob a #elenão ou #lulalivre, observamos um certo estranhamento entre a compreensão visual de algumas imagens-mensagens individuais e no contexto coletivo no qual ela foi legendada. São posts que representam pontos de vista extremamentes pessoais, realizados na maioria das muitas vezes, de forma reativa e catártica em relação ao acontecimento ou levante coletivo, nomeado #ativista.
Observamos o deslocamento do ponto da cólera individual para um discurso coletivo nas narrativas visualidas via a #elenão, nas quais notamos uma pluralidade de linguagens e de discursos, uma vez que esta hashtag foi adotada por cidadãos de diferentes partidos e posicionamentos políticos em torno de um mesmo grito a favor da democracia. Esta união de vozes polifônicas é um dos pontos observados na leitura disponibilizada pelas edições de narrativas do Calendário.
Parafraseando Gros (2018), observamos que as narrativas compostas por meio das hashtags tratam-se de “discursos de resistência civil inventivos, que não empregam a força” (GROS, 2018, p. 153). Esta contestação do discurso comum faz com que sintamos um dever de “fazer-sociedade” para além das instituições, não aceitando a realidade e com vontade de um projeto comum de futuro. Thoreau, Martin Luther King, Gandhi são exemplos de figuras públicas que praticam uma desobediência passiva (Ibid, p. 57-155), um levante coletivo engajado em convicções pessoais. Ver imagem desobediente.
A partir desses paradigmas e no decorrer da pesquisa, daremos mais subsídios para o entendimento do conceito imagem-mensagem. No Glossário Imageria, as discussões sobre as tipologias das imagens digitais, também complementam a compreensão e a elasticidade do termo.
Calendário Dissidente: cultura visual e memória política brasileira
O site Calendário Dissidente é um projeto que discute a memória gráfica e política dos principais acontecimentos sociopolíticos do Brasil, desde a posse do presidente Bolsonaro, 1º de janeiro de 2019 a 16 de novembro de 2021. A discussão é feita a partir do mapeamento das estéticas presentes nas imagens coletadas por meio da metodologia de visualização de dentro do banco de dados na rede social Instagram.
O Calendário funciona como repositório de narrativas e nos possibilita a visualização da variedade estética nas imagens que discutimos, pois elas são produzidas por mecanismos popularizados e acessíveis a todos os usuários de aplicativos de redes sociais para celulares. São produções que podem ser realizadas em tempo real, a partir da apropriação de imagens da mídia. Alguns posts analisados têm pouca elaboração, são rústicos. Já outros, são ilustrações vetoriais extremamente elaboradas e especialmente criadas para serem veiculadas nas redes. A imbricação entre tecnologia, reprodutibilidade técnica e a possibilidade de linguagens emergentes resultam na imagem-mensagem, destacada nesta pesquisa como uma nova imagem metamórfica (RANCIÈRE, 2013).
O Calendário também representa um projeto de colecionismo e curadoria de imagens da web. Ou seja, trata-se de um trabalho de coleta, arquivamento e edição dos arquivos visuais, compreendendo que desta ação desdobram-se reflexões teórico-metodológicas que fundamentam as análises da investigação.
As narrativas visuais publicadas foram coletadas a partir de seis hashtags: #designativista, #desenhosopelademocracia, #coleraalegria, #mariellepresente, #foragarimpoforacovid e #projetemos. E além das investigações acerca de linguagem, problematiza questões relacionadas ao arquivamento das imagens nas redes sociais, à visualidade dessas peças gráficas e à relevância dessa coleção de imagens-mensagens consideradas artefatos de design gráfico que compõem parte da memória gráfica brasileira.
Destaca-se o caráter colaborativo e experimental deste site, cujos objetivos extravasam a pesquisa acadêmica na medida em que o acesso ao site é aberto. O projeto é fruto de um estudo realizado na residência no Inova USP [Sidenote: 6. A realização do site exigiu uma equipe multidisciplinar: um designer gráfico – a pesquisadora, idealizadora e designer das telas; os cientistas de dados Gustavo Polleti, Vinicius Akira Imaizumi, Vinicius Ariel dos Santos (POLI-USP) e Gustavo Braga (Insper) – integrantes do Inova USP; e o programador independente Marcelo Villela Gusmão – responsável pelo front-end.] . Com o uso de de IAs, buscamos filtrar as narrativas mais relevantes para apresentá-las ao público em geral. Desta forma, incentivamos a todos que participem na criação e veiculação de manifestações poéticas e dissidentes.
Como vimos em Narrativas visuais no Instagram, este aplicativo oferece opções de filtros para fotografias, diversos estilos de fontes para mensagens divertidas e biblioteca de emoticons. A adição de novos elementos gráficos a uma fotografia é incentivada e facilitada, e trata-se de um recurso disponível em simples “botões” para que o usuário produza o seu post. Procedimentos de copy and paste de imagens que circulam nas redes e a apropriação de imagens icônicas de personagens ilustres adicionam novas camadas estéticas a essas bricolagens digitais.
O fato de as legendas funcionarem como metadados (o uso da hashtag junto a uma palavra-chave) possibilita a busca por determinado tema e a consequente visualização de uma coleção de imagens acerca daquela hashtag. Esse acervo de imagens, de autoria diversa, permite vislumbrar a potencialidade das hashtags ativistas e sua voz coletiva. E é a partir dessa imageria organizada pelos metadados que artistas e designers traçam suas estratégias e compõem seus projetos visuais singulares (VESNA, 2007).
Arquivá-las e catalogá-las exige uma metodologia que vai além do olhar empírico do curador. No Calendário Dissidente, a estética do jogo narrativo das redes é constituída por infinitas combinações entre imagem-texto e texto-imagem. A interdependência entre o algoritmo e a imagem – ou melhor, a visualização de dados a partir de tagueamentos/palavras-chave – somadas ao contexto sociocultural no qual a imagem foi produzida e publicada. Ao compreender essa articulação, compreendemos elementos importantes do design dessas narrativas (PAUL, 2011).
Desemaranhar o tempo das redes
Um dos grandes diferenciais do Calendário Dissidente é sua função temporal. A cronologia dos fatos passa a reger a lógica de leitura. Enquanto a visualização das postagens no feed do Instagram segue a lógica algorítmica, que embaralha as sequências temporais das postagens em nome do acesso à “visibilidade” dos fatos/postagens dos seguidores com os quais o usuário mais interagiu na rede, ou das imagens mais curtidas pelo seu ciclo de amigos. Da maneira como o aplicativo disponibiliza seus dados algorítmicos para o usuário, não existe a possibilidade de uma busca de determinada imagem por data, ou por assunto. Discutiremos as funções cronológicas e as estratégias de poder embutidas no formato e gênero narrativo do calendário a partir de Le Goff (1990) em Calendário como gênero narrativo.
O arquivamento das “memórias compartilhadas” e o desconhecimento do que de fato é arquivado pelas empresas que detêm os dados nas nuvens é frágil. Nesse sentido, a estratégia de criação de novos parâmetros para arquivamento, edição e categorização da produção de imagens dissidentes – o objetivo desse projeto – nos parece relevante, na medida em que estamos preservando artefatos gráficos, memória afetiva e política.
Preservar as imagens-mensagens, classificá-las e arquivá-las a partir de estratégias maquínicas com o auxílio de inteligências artificiais corresponde a uma parte dessa investigação sobre novas metodologias de análise da produção estética das redes. Esse conjunto de imagens está organizado a partir de mecanismos que não dependem dos aplicativos nos quais foram veiculadas (no caso, o Instagram). Para além da formação de uma coleção de peças gráficas representativas da cultura visual e memória gráfica, este acervo se articula na discussão das linguagens visuais emergentes das redes, presentes em diferentes vieses ao longo da tese.
Outro aspecto a ser destacado sobre essa coleção de imagens dissidentes, diz respeito à sua independência das grandes nuvens. Os dados foram classificados e arquivados em um servidor da USP baseado em um Code Design, uma lógica projetual previamente estabelecida para o projeto do Calendário Dissidente. Estão, em alguma medida, protegidos das especulações das grandes nuvens como Facebook, Instagram, Google, Amazon, que armazenam todos os dados dos usuários que diariamente usam a internet e aplicativos para se comunicar com seus ciclos pessoais e profissionais [Sidenote: 7. Para ler mais sobre o domínio dos dados e das nuvens informacionais, as Cloud Polis, ler The stack: on software and sovereigntly, de Benjamim Bratton (2015).] .
Além das explorações arquivísticas e classificatórias realizadas com o suporte de robôs, o experimento realizado busca inferir sobre outras questões apontadas na pesquisa: o ato de colecionar não é feito apenas para preservar algo que não pode ser esquecido. Segundo Domenico Quaranta (2014), arquivamos por diversas razões: motivações pessoais, institucionais, históricas, econômicas e culturais. A coleção de parte da memória política brasileira disponibilizada pelo Calendário dissidente também pode ser usada para outros fins, além dos propostos nessa pesquisa.
No processo de coleta de dados das redes, observamos como a preservação e arquivamento de imagens digitais acontece. Reproduzidas infinitamente, reapropriadas e reconfiguradas em outras mensagens, caracterizam uma imageria de arte gráfica digital. Organizá-las e classificá-las a partir de alguns critérios estabelecidos significa lidar com “webcolecionismo” (QUARANTA, 2014), na medida em que estamos preservando artefatos gráficos, memória afetiva e política. Essa coleção de narrativas visuais da memória política brasileira, produzida de forma espontânea, não institucional – diretamente pelo autor e produtor (e pelos internautas) para as redes – pode ser usada para diversos fins. Um deles será explorado nas edições das imagens de cada categoria estética da pesquisa.
Talvez no futuro, seremos salvos pela cópia, como detaca Quaranta (2014), ao apontar como copiar pode ser uma forma de preservação. Graças às cópias de originais e de rascunhos das pinturas de Leonardo da Vinci, historiadores da arte puderam desvendar o período da renascença. O autor também discute a importância do colecionismo digital e da cópia para artistas que lidam com a net art. É como se estivéssemos sempre correndo um risco iminente de perder os arquivos, deles desaparecerem nos sistemas de busca da internet ou não puderem ser abertos e visualizados devido à obsolescência dos softwares ou hardwares em que foram criados (Ibid, p. 237-240). No caso das redes sociais, corremos o risco de os aplicativos modificarem suas estruturas e dificultarem cada vez mais o acesso aos nossos dados pessoais, que deveriam, a princípio, estar disponíveis em um clique.
Práticas arquivísticas, uma revisão necessária
A partir de outra perspectiva, mais historiográfica, Andreas Huyssen (2000) nos provoca a questionar o sentido e o porquê de estarmos tão seduzidos pela memória como uma preocupação cultural e política na contemporaneidade. O autor questiona os formatos e leituras que estamos dando aos objetos que, de certa forma, recodificam o passado, levantando uma preocupação de uma visão revisionista e eurocêntrica das práticas memorialistas, sobretudo as realizadas por museus e algumas práticas artísticas e arquivísticas (HUYSSEN, 2000, p. 14). Para o autor, o mundo está sendo “musealizado” por todos os indivíduos. “Há uma espetacularização da memória em múltiplas linguagens, e a saturação da mídia e a tecnologia a qual confiamos o vasto corpo de registros e dados nos ameaçam ao esquecimento, gera uma sobrecarga no nosso sistema de memória, gerando o medo de esquecimento” (Ibid, p. 24-33, grifo nosso).
No Brasil, assim como em outros países do mundo, as questões revisionistas e decolonialistas dos acervos estão sendo amplamente discutidas no momento. Não só por instituições museológicas como o International Council of Museums (ICOM), mas pela academia e por diversos grupos independentes. Este movimento repercute em trabalhos científicos e artísticos, como por exemplo, Memória da Amnésia, demonumenta, para citar dois projetos dos quais tivemos a oportunidade de participar, ambos coordenados pela Profa. Dra. Beiguelman. Essas iniciativas representam uma evolução do pensamento crítico e arguto de Huyssen sobre questões globais, sociais e políticas envolvendo a cultura da memória. São projetos multidisciplinares que reinventam modos de ver nosso passado, propondo alternativas de disseminar nossa memória e nossa história, trazendo novas estratégias de catalogação e arquivamento, usando IAs e outras ferramentas tecnológicas.
No setor museográfico, há uma movimentação no sentido de considerar os eventos e exposições temporárias parte da história e do acervo de uma coleção. Alguns documentos iconográficos, fotografias ou vídeos circulam apenas nas redes sociais e ainda não estão incorporados nos bancos de dados das instituições. A prática da documentação de eventos temporários acrescenta às atividades dos museus uma camada de ação e interação multívoca: ao fazer seu próprio arquivo, o museu legitima seu lugar como produtor cultural em sua comunidade local e na comunidade global, ao mesmo tempo constituindo-se como fonte de conhecimento de material de pesquisa. É uma tarefa difícil que inclui a necessidade de manter o passado vivo no futuro. Dentro do contexto atual, no qual museus de todo o mundo passaram a adotar novas estratégias de catalogação digital e criaram novos mecanismos de interação com seu público – como ações midiáticas através de redes sociais –, os critérios de catalogação precisam ser revistos e ampliados (PRATA et al., 2018, p. 667).
O livro Futuros Possíveis traz novas perspectivas sobre o assunto e enriquece essa discussão. Ana Magalhães, curadora do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), menciona a necessidade de se adotar novas práticas de catalogação, cujas abordagens sejam mais contextuais e historicizadas do que técnicas.
Valeria a pena repensar o processo de catalogação e documentação dos acervos artísticos (de qualquer época) à luz do desenvolvimento dessas práticas e da história de consolidação das agências e órgãos reguladores que emergiram na segunda metade do século XX, segundo a sua dimensão política. (MAGALHÃES, 2014, p. 40).
O problema apontado por Magalhães se aplica no campo das artes visuais, da fotografia e do design. Incluir contextos sociopolíticos e os conteúdos imagéticos publicados nas redes sociais acerca dos objetos materiais (obra de arte ou artefato gráfico) como parte de um acervo de memória gráfica é assumir que a participação do público nesses canais contribui para outros critérios catalográficos.
O Calendário Dissidente se inclui na linha de projetos que discutem práticas curatoriais de arquivamento de memória no âmbito da cultura. A partir de uma coleção de arquivos de imagens-mensagens produzidas não só por artistas e designers, mas também por internautas/cidadãos brasileiros, oferecemos um banco de dados de artefatos gráficos que representam a memória coletiva de um grupo, que denominamos aqui como dissidente, em determinado período da história do Brasil. Essas narrativas estão em diálogo com abordagens sociológicas e tecnológicas sem as quais seria impossível compreender a produção estética das redes. Nesse projeto, copiar, colecionar e arquivar as imagens dissidentes das redes significa organizar a recente produção da cultura visual digital brasileira a partir de critérios temáticos, estéticos e cronológicos. O site é o resultado parcial da investigação da tese, está disponível para o grande público e pode receber outras leituras, para além do design de comunicação. E talvez, no futuro, essas imagens passem a ter um outro significado.
Uma segunda abordagem desse conjunto de imagens que merece ser discutida diz respeito ao comportamento sociocultural do homem contemporâneo, engajado em participar da vida social e afetiva em ambientes híbridos, no tempo e espaço do território físico mesclado à esfera das redes informacionais. Em Armazenando o eu: sobre a produção social de dados, Vicente (2014) nos incita a pensar sobre algumas questões: até quando as grandes nuvens vão arquivar nossos dados, sistematicamente, e para quais finalidades? Como obter informações relevantes sobre o riquíssimo material para quem pretende pesquisar a emoção coletiva de uma comunidade diante de um acontecimento? Como obter grandes volumes de dados de comportamentos individuais para analisar um comportamento coletivo, seja ele relacionado a um gosto musical ou artístico, a uma tendência de uso de um determinado lugar ou a um deslocamento de uma população na cidade? A partir destas questões, destacamos o quanto este cenário multiplataforma se articula à uma concepção de organização do social: “todos esses casos apontam para uma estética da agregação de dados como metodologia para produzir uma nova cultura visual em consonância com a sociedade da big data” (Ibid, p. 297).
Memória gráfica brasileira
A memória gráfica é uma linha de estudos derivada da Cultura visual e se propõe a sistematizar, por meio de algumas metodologias, a produção de artefatos gráficos. A expressão “memória gráfica” busca compreender a importância e o valor de artefatos visuais, em particular, impressos efêmeros, na criação de um sentido de identidade local. Para Priscila Farias e Marcos Braga é possível assumir a memória gráfica como estratégia de abordagem para um estudo de coleção de artefatos gráficos, na esfera da cultura material e na memória coletiva de um povo (FARIAS; BRAGA, 2018, p. 20-23).
Nesse momento, nos parece que o tema memória gráfica é de especial importância para países como o Brasil e países da América Latina, regiões do mundo colonizadas por europeus e que passaram por um longo período sobre um regime político de ditadura militar entre os anos 60 e 80. A história do design brasileiro e de seus vizinhos foram praticamente excluídas das narrativas dominantes da história do design, com uma visão eurocêntrica, escrita por teóricos como Meggs e Purvis (2009) e Craig e Barton (1987).
O esforço de resgate da produção gráfica brasileira por pesquisadores como Chico Homem de Mello, Marcos Braga, Priscila Farias e Isabella Aragão, entre outros, é precioso, pois abordam diferentes aspectos da história do design gráfico, fazendo uma distinção dentre os vários tipos de artefatos gráficos, como tipografia, cartazes (publicitários ou ativistas), ilustração, impressos corporativos. A visão destes autores, focada nos modos de produção técnica, circulação e consumo das peças gráficas, está alinhada com as questões levantadas por Margolin (2014), para quem a história do design gráfico é bastante complexa para ser narrada linearmente, e merece uma revisão mais contextualizada e recortada. Ver Galeria Design de impacto.
Design set e funcionalidades do calendário
Como vimos, em um primeiro momento, o site se propôs a catalogar as imagens do Instagram a partir de 4 hashtags: #designativista, #desenhospelademocracia, #mariellepresente e #coleraalegria.
O design code (ou tech design) – trabalho realizado entre designers e desenvolvedores para a coleta de dados e construção de um produto com funcionalidades e experiências específicas – é parte fundamental do processo de criação do experimento gráfico que resultou no site Calendário Dissidente. Se deu em três etapas:
- Extração. Captura de imagens do Instagram via software Instaloader (Python 3.5) para baixar todas as imagens postadas no Instagram através do número escolhido;
- Personalização do script para organizar e armazenar automaticamente as imagens por dia/mês/hashtag no diretório da máquina, no Inova Lab.
- Transformação. Desduplicação (cálculo do hash – um algoritmo que mapeia dados de comprimento variável – a partir dos pixels, considerando duas imagens iguais, nos casos em que a diferença entre o hash é menor que um limite).
- Criação de uma API – Application Programming Interface para visualização e gestão das imagens deste projeto [Sidenote: 8. As APIs e softwares criados para o desenvolvimento e gestão de dados deste projeto são open source, estão credenciados pela MIT License e disponíveis em https://github.com/wencolani/CrossE#how-to-cite.] .
- Informações de metadados da imagem: autor, legenda, hashtags, dia, número de curtidas.
- Seleção de imagens: o sistema carrega as 3 imagens mais curtidas de cada hashtag e rastreia os dados respectivos (do número do autor da API).
- O front-end: design da página com busca e acesso às imagens e filtro de palavras-chave (usando uma abordagem temática) para que as imagens representem muitos ativismos.
Em resumo, as três etapas do experimento de pesquisa foram feitas com o suporte de softwares específicos no ambiente do Inova USP com o objetivo de coletar, processar e organizar as imagens. Com a descrição deste processo reforçamos as imagens do Instagram como objetos-mensagem constituídos de camadas processuais algorítmicas que estabelecem conexões produtoras de sentido, tanto em ambientes maquínicos quanto nas interações decorrentes na plataforma ou para além dela.
Pandemia e novas hashtags protagonistas
Durante o primeiro ano da pandemia de covid-19, outros grupos ativistas ganharam protagonismo nas redes. Alguns temas urgentes, ainda não contemplados diretamente nas quatro hashtags que estávamos trabalhando, se deslocaram para as políticas sanitárias, sobretudo em relação aos menos favorecidos e à população indígena. Para ampliar a discussão das narrativas nas redes, incluímos as #foragarimpoforacovid e #projetemos.
Várias etnias indígenas se organizaram em coletivos, motivados em pautar questões ambientais, sobretudo o garimpo descontrolado (e incentivado pelo governo federal), que leva milhares de brancos a trabalhar ilegalmente nas terras indígenas, trazendo o vírus para a comunidade, até então protegida de doenças que circulam em ambientes urbanos. Deste modo, escolhemos a #foragarimpoforacovid para representar este tema. Criada por um coletivo de artistas, intelectuais e líderes indígenas de algumas etnias como Yanomami e Kambiwá, este grupo propõe uma agenda ativista que trata de questões como a preservação da cultura indígena, a prática do genocídio, as tramitações de leis e medidas provisórias no Congresso brasileiro que ferem a constituição, a demarcação de terras indígenas, exploração do garimpo em áreas de preservação. Notamos nas imagens coletadas por meio desta hashtag um planejamento na criação dos posts/cartazetes de aberturas dos temas nessas imagens-mensagens. Há uma composição formal e estética, característica das produções gráficas no campo do design de comunicação, com claro viés editorial e documental. Essas narrativas, menos polifônicas e focadas no ativismo étnico, decolonialista e ambiental, dão luz a pautas urgentes e importantes da atualidade. Com repercussão global, #foragarimpoforacovid passou a publicar textos bilíngues e a pertencer a grandes grupos ativistas no mundo.

A segunda hashtag incluída em junho de 2020 foi a #projetemos. Criada durante a pandemia pelo coletivo @projetemos, uma rede colaborativa de projecionistas no Brasil, esta hashtag representa uma nova linguagem visual ativista na medida em que devolve para as ruas as minimensagens projetadas em empenas de grandes cidades como São Paulo, Recife, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Belém. “A empena foi convertida na nova ágora dos tempos da coronavida. O confinamento deu vazão a outras formas de ativismo e as estéticas construídas através das janelas”, diz Beiguelman sobre as estéticas emergentes da pandemia(BEIGUELMAN, 2021, p. 9-10).

A estética da projeção inverte a lógica das redes. Essas normalmente espelham as ruas. Nesse caso, as telas estão nas ruas. A cidade é usada como interface e funciona como mídia para divulgar os acontecimentos políticos. Isso implica em outra visualidade, na forma com que o receptor vê e recebe a mensagem, isolada, pausada e conectada a outras sequências de imagens que jamais estariam em seu feed. Nesse sentido, o coletivo Projetemos exerce uma curadoria de trabalhos relacionados a outros ativismos, ou pautas que merecem ser projetadas e extrovertidas para o âmbito das ruas. Fenômeno semelhante acontece com a #coleraalegria, na qual as imagens postadas correspondem a trabalhos de artistas do coletivo, relacionados a temas elegidos pelo coletivo para uma produção ativista referente a um assunto em evidência.
Por fim, a configuração final do Calendário ficou organizada em torno das narrativas visuais destas 6 hashtags: #designativista, #desenhospelademocracia, #mariellepresente, #coleraalegria, #foragarimpoforacovid e #projetemos. Com esta imageria arquivada e organizada, passamos para a etapa seguinte, a de análise visual das imagens, a partir de parâmetros estéticos e à luz do design.

Funcionalidades
Descreveremos nesta seção as funções do calendário e as possibilidades de navegação e experiência do usuário. A visualização da home page privilegia as principais imagens do dia, visualizadas pelas hashtags temáticas, pela data do acontecimento a qual elas se referem e foram publicadas, pelos nomes dos usuários – não necessariamente o autor da imagem. O site captura, indexa e publica diariamente as três imagens mais curtidas. O rastreamento é atualizado 4 vezes ao dia. A partir de uma varredura algorítmica das legendas das imagens, editamos as palavras mais usadas para criar uma outra camada de busca, um filtro por palavras-chave, sendo possível assim, verificar quais assuntos foram mais ilustrados e elucidam os temas que pautaram a agenda sociopolítica e cultura brasileira desde 1º de janeiro.

1. Filtros
Na tabela abaixo, conseguimos rastrear quais as hashtags dissidentes mais usadas nas legendas das imagens de todas as hashtagsdo calendário: #mariellepresente, #designativista, #desenhospelademocracia, #coleraalegria, no período entre 1º de janeiro e 6 de novembro de 2019 (10 meses completos).As 1.000 hashtags e palavras-chave mais usadas nas legendas das imagens do Calendário e suas respectivas ocorrências, levantadas entre os períodos de 1 de janeiro de 2019 a 6 de novembro de 2019:
- #mariellepresente 42.004
- #tv247 2.160
- #lulalivre 24.446
- #manifestoches 2.158
- #vazajato 12.751
- #brizolavive 2.155
- #designativista 11.431
- educação 2.103
- #forabolsonaro 11.344
- #racismo 2.098
- #elenao 10.598
- #fascismo 2.074
- #brasil 9.436
- justiça 1.998
- #resistencia 9.054
- #arte 1.998
- #quemmandoumatarmarielle 8.429
- arte 1.944
- #esquerda 8.134
- direitos 1.935
- #mariellefranco 8.037
- #direitoshumanos 1.846
- #elenunca 6.718
- #marighella 1.841
- #impeachmentbolsonaro 6.693
- #educaçãoinclusiva 1.822
- #moromentiu 6.600
- #impeachmentdebolsonaro 1.811
- #conversaafiada 6.502
- governo 1.810
- #eusoulula 6.498
- #bolsonaroenvergonhaobrasil 1.772
- #caixa2dobolsonaro 6.298
- #pdt 1.748
- #manueladavila 6.068
- #bolsonaroburro 1.744
- #elenão 6.062
- #lgbt 1.732
- #haddad 6.038
- #marielevive 1.683
- #ditaduranuncamais 5.108
- #antifa 1.662
- #democracia 4.597
- #brazil 1.649
- #lula 4.584
- #pcdb 1.648
- #ninguemsoltaamãodeninguem 4.551
- anderson 1.634
- #psol 4.458
- #marielepresente 1.631
- #elejamais 4.395
- lula 1.631
- #riodejaneiro 4.171
- #marielle 1.627
- #luta 4.117
- #illustration 1.597
- #desenhospelademocracia 4.108
- #partidosolaranja 1.563
- #midianinja 4.106
- #moronacadeia 1.555
- #esquerdavalente 4.097
- #bolsonaro2018 1.546
- #euavisei 4.034
- #desgoverno 1.520
- #feminismo 4.021
- negra 1.495
- #pt 3.952
- #quemmatoumarielle 1.487
- #partidodostrabalhadores 3.830
- #lulalivrejá 1.486
- #brasilia 3.816
- #drawing 1.480
- #tsunamidaeducação 3.766
- povo 1.477
- #lulapresopolitico 3.764
- #juntossomosmaisfortes 1.467
- #haddad13 3.582
- história 1.455
- #mulherescontrabolsonaro 3.550
- #morocriminoso 1.430
- #grevegeral 3.541
- política 1.390
- #morofascista 3.533
- foto 1.388
- #curitiba 3.457
- amor 1.380
- #bolsonaro 3.454
- negras 1.347
- #resistência 3.345
- entre 1.346
- #regrann 3.338
- morte 1.326
- #politica 3.338
- #15m 1.307
- #saopaulo 3.335
- #liberdade 1.300
- #salvador 3.335
- #desenho 1.246
- #cirogomes 3.332
- resistência 1.236
- #theintercept 3.310
- crime 1.225
- #jornalistaslivres 3.299
- #antifascism 1.200
- #fernandohaddad: 3.275
- moro 1.189
- #mulheresunidaspelademocracia 3.230
- #mexeucomumamexeucomtodas 1.177
- #cartacapital 3.222
- #eleicoes2018 1.151
- #facistas 3.215
- sociedade 1.143
- #brasil247 3.206
- #lulavalealuta 1.143
- #recife 3.151
- humanos 1.125
- #lulanobeldapaz 3.074
- #resistêcia 1.124
- #presopolitico 3.056
- nossas 1.107
- #cadeoqueiroz 3.056
- #inclusão 1.102
- #eleições2018 3.055
- #eibolsonarovaitomarnocu 1.100
- #belohorizonte 3.055
- poder 1.096
- #dcm 3.049
- #educaçãoespecial 1.095
- #portoalegre 3.037
- #educarfilhos 1.095
- #golpista 3.005
- #alunosespeciais 1.095
- #fortaleza 3.004
- #deficientes 1.095
- #manaus 2.981
- #deficientesfisicos 1.095
- #ficaadica 2.978
- assassinato 1.094
- #educação 2.973
- #pcdob 1.094
- #globogolpista 2.971
- estado 1.091
- #floripa 2.968
- sou 1.089
- #brazilresists 2.965
- #elesim 1.089
- #belem 2.951
- #lgbtq 1.080
- #foratemer 2.895
- tão 1.079
- #redeglobo 2.844
- disse 1.079
- #dilma 2.843
- #rabiscos 1.078
- #mulheresnapolitica 2.620
- corpo 1.077
- #vidasnegrasimportam 2.557
- @midianinja 1.073
- #designativista 2.527
- #30m 1.071
- #cultura 2.272
- #homofobia 1.046
- #infuxwetrust 2.265
- #movimentonegro 1.038
- #morogate 2.263
- indígenas 1.035
- #fascista 2.251
- vereadora 1.034
- #bolsonarovaitomarnocu 2.211
- #diversidade 1.023
- #carluxo 2.164
- #machismo 1.018
- #art 2.164
- #bolsonaronao 1.016
- #bolsonarolaranja 2.161
- #lgbtfobia 1.001
A escolha dos filtros temáticos aplicados às imagens do calendário do dia foi feita a partir da varredura das 1.000 palavras-chaves e hashtags extraídas das legendas. Para ampliar o espectro temático dos ativismos representados por essas imagens, tivemos a preocupação de incluir outros temas presentes nos ativismos representados pelas imagens, como aquecimento global, fumaça, Amazônia, mineração, petróleo, homofobia, resistência, racismo.
Lista completa dos 55 filtros do site, em ordem alfabética:
- amazonia
- justiça
- aquecimento global
- lgbt
- arte
- lgbtq
- Bolsonaro
- liberdade
- Brasil
- lula
- Brazilresists
- lulalivre
- Brumadinho
- machismo
- caixa2dobolsonaro
- mariellevive
- cirogomes
- meio ambiente
- crime ambiental
- mexeucomumamexeucomtodas
- cultura
- mineração
- democracia
- moradia
- desastre ambiental
- moro
- dilma
- movimentonegro
- direitoshumanos
- mulherescontrabolsonaro
- ditaduranuncamais
- mulheresnapolitica
- diversidade
- mulheresunidaspelademocracia
- doria
- negra
- educação
- ninguemsoltaamãodeninguem
- educaçãoinclusiva
- óleo
- eleicoes2018
- petróleo
- elenunca
- praia contaminada
- esquerda
- previdência
- fascistas
- queimadas
- feminismo
- quemmatoumarielle
- foratemer
- racismo
- fumaça
- redeglobo
- golpista
- reforma trabalhista
- grevegeral
- resistência
- haddad
- sociedade
- história
- tsunamidaeducação
- homofobia
- vazajato
- impeachmentbolsonaro
- vidasnegrasimportam
- indígenas
2.Imagens em destaque
Todas as imagens publicadas estão creditadas a partir do nome do usuário que as publicou no Instagram (sendo possível acessar a página do autor). Como várias imagens são viralizadas e repetidas, adotou-se o critério de creditar a primeira publicação referente àquela imagem.


2.1. Link para a página do autor no Instagram:

Ler por imagens
Ao navegar pelos meses dos calendários, podemos assimilar alguns aspectos da política e dos acontecimentos no Brasil através da visualidade (MENESES, 2003). Ao se deparar com a leitura de imagens, percebemos o papel fundamental desta na compreensão da mensagem da peça gráfica por meio de um mosaico de linguagens visuais – ilustrações manuais, imagens documentais apropriadas da grande mídia, ilustrações vetoriais digitais e colagens com linguagens remixadas.
As imagens produzidas e compartilhadas por muitos formam uma narrativa heterogênea, em termos de linguagem visual, mas uníssona em termos de mensagem. Um jogo de linguagem, participação coletiva, adição, apropriação, trocas afetivas, posições políticas, ativismos relacionados a diversos temas. Há uma contaminação de um sentido comum, de algo que nos afeta, gerando um senso de que é preciso participar dessa corrente, produzindo elementos gráficos, participando desse jogo de linguagem de ler por imagens. Didi-Huberman nos ajuda a entender este fenômeno cuja experiência da visualidade é aprofundada em Cultura Visual e imagem digital.
A estética de banco de dados emerge da superprodução de informações disponíveis no fluxo das redes. O Calendário Dissidente, como projeto experimental, aponta o potencial estético da visualização das narrativas visuais pelas inteligências artificiais. Os softwares criados para os rastreamentos das palavras-chaves possibilitam a visualização de peças gráficas únicas acerca de determinado tema, ampliando as informações e os pontos de vista sobre um mesmo evento. Na medida em que ampliamos a análise dos exemplos visuais com o uso de inteligências artificiais, entramos em contato com outras características dessas peças gráficas, objetos materiais.
A possibilidade de conhecer os portfólios de ilustradores e artistas de todo o Brasil e ter a oportunidade de observar as tendências e os estilos das ilustrações digitais de cada um também é um bom resultado para a pesquisa que emergiu da navegação do Calendário.
Política de dados: o calendário interrompido
Um dos objetivos do calendário era cobrir os quatro anos do governo Bolsonaro e organizar cronologicamente a narrativa visual e a memória gráfica da sua política desastrosa, notadamente marcada por retrocessos em todos os campos, reconhecido como os piores anos da história do país. O posicionamento político dessa gestão desencadeou diversos levantes ativistas: meio ambiente, racismo, questões de gênero, protagonismo feminino, questões de etnias pretas e indigenistas, para citar alguns temas, culminando com a crise sanitária, econômica e social provocada pela pandemia da covid-19 e pela política anti-vacina do presidente. Ou seja, desde o início da pesquisa e a escolha das hashtags mais significativas, alguns eixos temáticos ganharam mais força e outros grupos dissidentes começaram a aparecer com mais protagonismo nas redes.
A crise sanitária e a disseminação de notícias falsas sobre a covid-19 geraram um segundo Calendário Dissidente, o Pantone Político, organizado em torno de notícias provenientes de fontes fidedignas do Twitter. Este experimento gráfico, apropria-se da Escala Pantone e traça um diálogo entre os dois experimentos estéticos na medida em que ambos se utilizam dos dados de redes sociais com o intuito de informar, arquivar, editar e disponibilizar para o grande público, os principais acontecimentos políticos do país durante esse período. As estratégias de design do Pantone Político extrapolam o design de comunicação e a ciência de dados e tem um impacto social e de serviço para a população menos favorecida. Ler no tópico Pantone Político: estéticas pandêmicas.
Em termos dissidentes, os dois trabalhos driblam a política de dados dos aplicativos para oferecer de forma criativa um produto/serviço de design. Uma espécie de “hackeamento” do bem, pois todos os procedimentos de extração de dados foram feitos com scripts e softwares open source, disponibilizados na plataforma Python. Não violamos nenhuma política de privacidade e de dados de ambas as empresas. No caso do Twitter, a autora conseguiu uma licença de pesquisadora e ganhou um API acadêmico para rastrear e dar download das notícias.
Já o Instagram, aplicativo da empresa norte-americana Meta (controladora também do WhatsApp e Facebook), adota regras mais severas e restringe o uso da sua API ao acesso a um número limitado de imagens. Com o aumento de casos de fake news durante a campanha de reeleição de Donald Trump em 2020, a empresa alterou drasticamente as políticas de dados, restringindo a visualização dos dados algorítmicos das imagens que circulam nas redes, impossibilitando o download de imagens por softwares autorizados para tal função. Esta medida tinha como objetivo dificultar a indústria de bots, geradora de notícias falsas, e impactou a operação de dados do Calendário Dissidente. Não conseguimos rastrear e extrair as principais imagens do dia desde 16 de novembro de 2020. Ou seja, a memória gráfica do calendário cobre a imageria produzida até esta data.
Depois de ter redesenhado os códigos do Calendário duas vezes, por conta de alterações das APIs do Instagram, não havia recursos e equipe disponível para iniciarmos mais um processo de codificação. A interrupção da extração de dados para o calendário se deu em meio à crise política da eleição norte americana, no auge da crise da pandemia de covid-19 no mundo e no ápice das manipulações de dados por robôs treinados para extrair dados verdadeiros e transformá-los em notícias falsas. Perdemos a oportunidade de completar a narrativa visual dos quatro anos da gestão de Bolsonaro. Porém, os dados coletados para a pesquisa foram mais do que suficientes para as investigações propostas e representam um rico acervo da memória gráfica e política brasileira.
Este episódio nos leva a outra discussão sobre a fragilidade de acesso aos trabalhos de net art, sujeitos às restrições políticas e tecnológicas. Também fortaleceu a ideia de que um calendário interrompido e paralisado representa o emaranhado do tempo pandêmico. São “imagens quebradas”, como diz Beiguelman, impossibilitadas de sobreviver a um futuro baseado no “capitalismo informacional” [Sidenote: 9. Conceito cunhado por Manuel Castells em A sociedade em rede, 1999.] , no qual a velocidade com que produzimos e consumimos informações fazem com que se tornem imagens desatualizadas, quebradas ou obsoletas em um curto espaço de tempo (BEIGUELMAN, 2014, p. 46).
Podemos dizer que essas plataformas seguem o regime “capitalismo fofinho”, outro termo cunhado por Beiguelman, para criticar a iconografia da web 2.0. Esse se expressa não só por meio do design amigável dos aplicativos, seus ícones, devices e design coloridos, pela opacidade de um design de informação cujo objetivo parece ser suprimir a possibilidade de conflito (Ibid, p. 48).
Seguindo essa lógica, as redes sociais como Facebook e Instagram são lugares onde os dados informacionais são protegidos. Quer dizer, controlados e monitorados, pois as plataformas definem quando e o que querem veicular e para quem. Não há negociação entre as partes (usuários e app). A página do Instagram, um álbum de imagens colorido e lúdico, é a fachada do grande negócio que sustenta a gratuidade do aplicativo: a coleta de dados para anunciantes. A restrição ao acesso das APIs das imagens, a rigor, visa proteger o usuário em nome da preservação de sua privacidade de dados.
Porém, essa mesma ferramenta alimenta o rastreamento algorítmico para fins comerciais, beneficiando a plataforma. Coincidências à parte, a restrição de uso das APIs do Instagram ocorre no mesmo momento em que a indústria de tecnologia de softwares e aplicativos e os serviços de plataforma de todos os tipos lucram com upgrades e downloads diários, além da venda de anúncios. É uma operação dupla: o lado A oferece uma boa experiência do usuário no sentido afetivo, sensorial e cognitivo, enquanto o lado B escamoteia sua política dos dados e o está sendo rastreado, arquivado e comercializado pelas corporações, a partir dos rastros dessa experiência na rede (ZUBOFF, 2019; BRUNO, 2013).
Este experimento gráfico é um projeto cuja estratégia de funcionamento dependeu de uma infiltração dentro de uma rede fechada. Seu DNA é gambiológico pois dribla – por meio de uso de softwares livres e sem quebrar as regras – encontrando as brechas de todo um sistema algorítmico. Há uma tensão entre a estratégia de design, os objetivos do site, com fins culturais, sociopolíticos e acadêmicos e a vocação capitalista informacional da rede. Seguindo o raciocínio de Beiguelman, podemos dizer que a dissidência do calendário é também tecnológica, ou melhor, tecnofágica – um dispositivo gambiológico de desobediência tecnológica. Este tipo de projeto de artemídia é uma combinação entre tradição e inovação: “os arranjos inusitados entre saberes imemoriais e de última geração e a revalidação das noções de high tech e low tech” (BEIGUELMAN, 2014, p. 46-50).
A obsolescência programada dos trabalhos de design e artemídia que utilizam uma infraestrutura tecnológica e dependem de uma mídia para serem expostos e visualizados é um dado concreto. A grande maioria dos trabalhos de videoarte da década de 60, por exemplo, foram originalmente gravados em fitas Betamax, antecessoras da fita VHS, do DVD e hoje, do arquivo digital, hospedado em uma nuvem. As mídias estão sujeitas a transformações ou interrupções das empresas que as fabricam e essa constante acaba por traçar uma arqueologia da obsolescência dos trabalhos audiovisuais e de net art no século 21. Como vimos com Vicente (2014), estamos alimentando uma cultura visual e criando novas poéticas a partir de dados agregados da sociedade (e do negócio) da big data. São práticas e operações sujeitas a descontinuidades, seja por questões de obsolescência das mídias, seja por políticas algorítmicas, como foi o caso do Calendário Dissidente.
#ativismo: das ruas para as redes
O engajamento político dos cidadãos acontece nas ruas (off-line) e nas redes (on-line). Lynn Clark (2016) relata a importância das redes sociais na internet como um canal aberto para a comunicação, mobilização e ações políticas de adeptos à prática ativista estética, na medida em que amigos e membros das comunidades das quais o indivíduo participa passam a se manifestar por meio dessa nFova linguagem de produção de conteúdo.
Assim, o conteúdo compartilhado – traduzido e compilado no formato de imagens-mensagens – revela como a identidade coletiva tem um papel central no entendimento da participação do cidadão, usuário das redes, na produção desses artefatos que são as imagens-mensagens.
Dito de outro modo, tais conteúdos também podem ser reconhecidos como “cartazes on-line”, para citar uma peça gráfica emblemática das manifestações de linguagens visuais dissidentes. São levantes políticos e sociais (DIDI-HUBERMAN, 2017) que representam uma nova corrente estética das narrativas visuais da contemporaneidade.
A constatação de que as redes sociais se tornaram os principais canais de mobilização e de veiculação das ações cognitiva e participativas em relação aos acontecimentos políticos – por meio da produção ou compartilhamento de posts – é assunto tratado por Castells (2012) em Espaços de subordinação e contestação nas redes sociais. Beiguelman (2012) amplia essa discussão ao tratar do espaço das redes como espaços públicos, no qual “a mudança cultural demanda a reprogramação das redes de comunicação” (CASTELLS, 1999, p. 302, apud BEIGUELMAN, 2012, p. 24).
A partir da contestação de imagens projetadas no espaço público, criamos espaços de troca, de potências criativas e de contaminação de desejos, de luta e de imaginários, que se dá a produção de narrativas aqui investigadas. Deste modo, ressaltamos como a cultura visual digital das redes abordadas nesta investigação aponta para uma presença da produção de conteúdos visuais e textuais ativistas em interações semelhantes. Neste caso as hashtags terão um papel central na visualização destes conteúdos, organizando galerias de imagens produzidas por perfis variados.
O termo hashtag ativista apareceu primeiramente na mídia em 2011, nos Estados Unidos. Este ativismo on-line está conectado a fatos reais e materiais na esfera digital e física e reforça um papel histórico dos cidadãos em campanhas ativistas, de acordo Jackson (2020).
O termo também reflete um esforço de pesquisa transdisciplinar realizado pelas pesquisadoras norte-americanas Sarah Jackson, Brooke Foucault Welles e Moya Bailey no livro # Activism (2020). A publicação apresenta resultados de um estudo sobre gênero e raça no Twitter, iniciado em 2014. Elas investigam, como usuárias e como pesquisadoras de mídias, o comportamento de hashtags, suas histórias e repercussão global, nacional e em políticas locais. A menção a esta publicação busca traçar um paralelo com o presente trabalho pois a pesquisa abrange todo o contexto ativista ao longo da campanha de Donald Trump, em 2016.
É curioso observar as investigações sobre identidade política em clusters no Twitter – grupos específicos segmentados por ideais políticos ou por qualquer recorte definido em uma pesquisa com dados. As hashtags sobre mudanças sociais durante as eleições de Donald Trump nos Estados Unidos espelham as narrativas visualizadas pelas hashtags dissidentes no Brasil, escolhidas nesta pesquisa para representar as narrativas referentes às eleições de Jair Bolsonaro. A prática de tagueamento desenha modelos de ações de comunicação do próprio presidente Trump, de empresas corporativas e do branding de instituições e marcas (Ibid, 2020).
O discurso xenófobo e sexista de Trump durante a campanha de 2016 serviu de inspiração para o então candidato à presidência Jair Bolsonaro, em 2018. O presidente copiou a mesma estratégia de comunicação norte americana e escolheu primeiramente o Twitter como sua plataforma principal, criando uma tática de construção de narrativas inverossímeis para espalhar e disseminar suas ideias, narrativas sexistas, racistas, mentirosas, criando uma narrativa populista, misógina, de direita e alinhada ao retrocesso democrático.
Observamos que o comportamento dos usuários em redes como Twitter e Instagram se manifestaram de forma análoga ao constituir uma rede de fortalecimento das dissidências em torno de temas comuns. Infelizmente, ambas as estratégias ativistas, sobretudo nos casos analisados, Brasil e EUA, fracassaram diante do resultado nas urnas. Contudo, os ideais de um ativismo público, aberto, inclusivo e democrático, feito por cidadãos que produzem e consomem conteúdo em plataformas conectadas se fortaleceu em diversos âmbitos, mas especialmente nos campos da Ciência Política, Comunicação Social, Artemídia e Design.
No caso desta pesquisa, priorizamos a investigação da repercussão dos comportamentos sociais e culturais das manifestações imagéticas, considerando a relevância da participação dos usuários das redes sociais como chave de ativismos.
Hashtag X
A visualização de dados como forma de aglutinar e consolidar informações acerca de um tema ou fato vem sendo estudada desde o início dos anos 2000. A estética do projeto com imagens informacionais depende da manipulação do artista e sua prática em lidar com dados, como ele navega pelos backbones (rede de transporte de dados) das redes e consegue vislumbrar informações com uma vocação estética para seu projeto. O modo como a informação é organizada e o que deve ser publicado de forma estética depende do artista-editor (VESNA, 2007, p. 10).
No campo do design de comunicação notamos no Instagram como as hashtags seguidas de uma palavra-chave, funcionam como uma legenda aglutinadora de imagens que se deslocam em diversos contextos para serem reagrupadas em narrativas temáticas.
O grande diferencial dos ativismos virtuais é que o local onde o debate público acontece hoje é num espaço que dá acesso à participação e engajamento de todos os usuários das redes sociais, incluindo uma população menos privilegiada e que normalmente fica excluída do debate político e social. Por meio de postagens de textos e de imagens ativistas marcadas com as hashtags das principais campanhas, esses cidadãos que sempre estiveram à margem na participação e decisão política passam a ter protagonismo. A democratização do acesso ao debate sociopolítico é um dado essencial para considerarmos a participação do usuário no debate público. O alcance das hashtags é fundamental para escalonar os ativismos de indivíduos e coletivos desvinculados às instituições ou à elite “formadora de opinião” em um meio acessível e democrático. “Uma comunicação direta com imagens, emoções e ideias disseminadas amplamente de uma forma nunca vista anteriormente” (JACKSON et al., posição 21).
A combinação entre a visualização de dados quantitativos com referências filosóficas, a computação social e o campo das humanidades nos permitem uma análise mais completa relacionada à linguagem e ao vocabulário que esta prática ativista enuncia, criando pontes entre design e comunicação, tecnologia e participação, democratização e dissidências. Para pesquisas com palavras e “coisas”, é preciso saber fazer uma coleta dirigida de dados massivos a partir das APIs de plataformas como Facebook, Instagram e Twitter, orienta Fabio Malini [Sidenote: 2. Pesquisador e diretor do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (LABIC) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Neste artigo Malini explica algumas estratégias de pesquisa com palavas-multiverso no dataset, dá exemplos de análises discursivas de algumas hashtags como #AntifasPelaDemocracia e as diferenças dos datasets colhidos ao incorporar palavras adicionais como “protesto”, “manifestação”, “democracia”, In: https://fabiomalini.medium.com/a-palavra-e-as-coisas-como-montar-a-sua-lista-de-termos-para-coleta-de-dados-em-redes-sociais-39ed3648ea4] .
As estratégias de como são feitas as buscas de palavras podem mudar a quantidade de visualização e dados, excluindo ou incluindo outras narrativas. Ou seja, a inclusão de “e” para dois termos sinônimos ou complementares expõe a função de interseção que a base de dados vai retornar sobre determinado tema. “Uma escolha de termos feita às pressas pode ocultar informações preciosas contidas em diferentes bolhas que não usam o termo escolhido pelo pesquisador, que, ao não as incorporar à coleção final de dados (dataset), ora pela inexperiência, ora pelo viés ideológico, perderá a oportunidade de registrar o debate mais denso, uma conversação mais diversa e um fluxo contraditório mais tenso nas redes”, completa o pesquisador (MALINI, 2020).
Para a obtenção e um dataset vasto em termos de diversidade discursiva sobre determinado termo da pesquisa, Malini alerta para a importância da espera de alguns dias para avaliarmos o “momento discursivo” de determinada hashtag nas redes sociais, onde os acontecimentos precisam de um tempo mais longo, e não acompanham a rapidez das redes para que apareçam ocorrências e atores se manifestem sobre um fato (Ibid, 2020).
A lógica dos tagueamentos
A legenda da imagem-mensagem no Instagram sugere o deslocamento deste post no fluxo das redes e gera outras possibilidades de inserção deste conteúdo em diferentes narrativas e plataformas. Observamos nessa operação um fenômeno importante: a possibilidade e o risco da transformação da natureza de uma imagem documental em uma imagem ficcional. A imagem está constantemente sujeita à interação e interpretação do usuário, à sua experiência da “visualidade” do fluxo das imagens das redes.
Em Contextual networks: data identity and collective production, Christhiane Paul (2011) aponta que existem novos contextos nos quais essas imagens, tagueadas pelos metadados, são visualizadas. A estética dessas narrativas com imagens heterogêneas, assim como a estrutura visual e o entendimento dessa linguagem de storytelling, parece oscilar de acordo com essas combinações de dados e de ações colaborativas por parte dos “leitores/autores/artistas” participativos. Uma imagem documental dentro de um contexto específico pode significar uma imagem ficcional de acordo com a palavra-chave associada à ela.
Os dados reais e virtuais se juntam nas redes sociais. Seguindo esse raciocínio, pode-se dizer que essas plataformas são os “ready for use” de distribuição, com a facilidade de oferecer uso de filtros para edição das imagens e links informacionais (tagueamentos que acionam e ampliam as redes de contato com aquela imagem/mensagem), como um verdadeiro broadcast de narrativas visuais. O uso das tags, com o uso do símbolo da # e da georreferenciação, no caso do Instagram, propõe paradigmas classificatórios em um contexto de produção dinâmica: “a classificação cria o contexto para a produção do significado, na qual a massa crítica de usuários determina, ou pelo menos ajuda a modelar, o significado” (PAUL, 2011, p. 110).
Ao elaborar nossa estratégia metodológica, optamos pela lógica de trabalhar com muita quantidade para extrair dados qualitativos e interpretativos. E acabamos por seguir os procedimentos sugeridos por Malini (2020) e as observações contextuais e de significado apontadas por Paul (2011), o que resultou em uma leitura multifacetada das palavras-chave pesquisadas.
A prática de construção de narrativas se beneficia do ativismo digital em que movimentos como #mariellepresente ou #blackslivesmatter são o resultado e exemplo da potência dessas dissidências e do engajamento dos negros (afrodescendentes), das mulheres, da população LGBTQIA+, da população indígena, das minorias, nos últimos anos. Por outro lado, é importante lembrar que hashtags virais e ativistas, promovendo supremacia branca, homofobia e racismo também ganham espaço neste momento em que as batalhas das narrativas nunca estiveram tão subordinadas às ações do público (e do corporativismo das grandes empresas tecnológicas) nas redes. Apresentamos um estudo de caso a partir da #mariellepresente, no qual discutimos a relação entre a politização das narrativas e a política de visualização de dados das grandes corporações Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft (GAFAM) em Aprendizagem de máquina e subjetividade.
No caso da #blackslivesmatter, observamos a adesão maciça desta hashtag. Segundo Jackson, as narrativas compostas pela leitura desta hashtag no Twitter elucidam o passado, o presente e o futuro de causas políticas e contam histórias comoventes e difíceis que membros da comunidade estão familiarizados, embora os simpatizantes à causa ainda precisam se encorajar em participar e aprender mais sobre. Ao observar essas hashtags, assim como a #mariellepresente no Instagram, constatamos as “nuances de experiências e questões, histórias e teorias de participação social em uma mensagem sucinta, fácil de ser digerida, em uma forma fácil de ser repetida, republicada” (JACKSON et al., 2020, p. 206).
Jackson destaca as hashtags ativistas como uma prática de políticas sociais, presidenciais, lobbies de empresas e ONGS e celebridades que participam e engajam pelas causas de mudança social. Por outro lado, levantam questões sobre a lógica algorítmica e como esta pode devastar a reputação de alguém em segundos; como as regras de funcionamento das plataformas como Facebook, Instagram e Twitter deveriam seguir leis atreladas à proteção de dados e privacidade de cada país. Nos Estados Unidos a regulamentação é muito frágil e as plataformas estão descritas na seção 230 sobre Telecomunicações como “portos seguros”, onde não há necessidade de censura de conteúdo ou de penalidades (Ibid, p. 201). No Brasil, a atual Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), em vigor desde 2021, visa proteger a privacidade e os dados dos cidadãos. Está alinhada com as regulamentações da União Europeia e dos Estados Unidos, aprovada em 2018. Porém a veiculação de peças gráficas por perfis robóticos e práticas de disseminação de notícias falsas tem sido uma preocupação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e alvo de disputas entre ministros da justiça e o atual governo. Atualmente, o Brasil tem conseguido restringir algumas medidas para o comportamento de encaminhamento de mensagens em grande número, como no WhatsApp e Telegram, assim como exige maior verificação do Facebook sobre os conteúdos políticos publicados, pedindo mais agilidade para o bloqueio de contas que praticam a desinformação.
Visualização e métricas das nossas hashtags dissidentes
Ao analisar o volume gigantesco de posts dissidentes, podemos apurar a presença de uma poética singular nas imagens produzidas e veiculadas no Instagram. As imagens ativistas inundaram as redes sociais como uma cachoeira que deságua num rio, com um fluxo de água potente e contínuo constituído por fragmentos temáticos, raramente observado até então nas mídias sociais brasileiras (Instagram e Facebook).
A estética desses posts apresenta um léxico próprio, inerente ao meio na qual a imagem foi produzida e veiculada. A efemeridade da produção dos cards das redes, pautados pelos acontecimentos diários e pelas declarações nas mídias (Twitter, TV, jornal impresso, internet, blogs, Facebook, Instagram) tem como principal característica a volatilidade. Já nascem um tanto perdidos e vão perdendo – ainda mais – o rastro e as raízes de origem para compor o fluxo midiático dos feed de notícias. Paradoxalmente, a sequência de posts visualizados no feed do aplicativo constitui uma grande mensagem polifônica sobre o mesmo tema.
Retirar essas narrativas temáticas do fluxo midiático e fazer uma curadoria dessas imagens a partir da metodologia de visualização de banco de dados significa organizar nossa memória atual, que já principia fadada ao esquecimento, na medida em que não há nenhuma garantia que determinada imagem/card/post vá ser visualizado e compartilhado [Sidenote: 3. Ver Algumas razões pelas quais arquivamos (QUARANTA, 2014, p. 105).] .
A autoria das imagens publicadas muitas vezes passa despercebida ou é ‘esquecida’, uma vez que se desloca para outros contextos, ou é apropriada na montagem e edição de outras peças. A esse respeito, vale destacar que quanto maior o engajamento do público das redes na produção dessas imagens, mais enriquecedor o vocabulário remixado dessa produção estética em termos de amostra qualitativa. E, talvez, mais estandardizado em termos de padronização estética.
O número de imagens postadas sob a mesma hashtag ultrapassa a casa do milhar. Para conseguir capturar as imagens do #elenão postadas especificamente no dia das manifestações em 29 de setembro, foram necessários 6 de dias de download de imagens em uma máquina com capacidade de armazenamento de 2 terabytes e uma internet de altíssima velocidade [Sidenote: 4. As classificações estéticas descritas nas tabelas estão explicadas e detalhadas no tópico Paradigmas estéticos para classificar imagens informacionais.] .

O ato de taguear as imagens com essas hashtags permaneceu após as eleições. São temas emblemáticos ainda em pauta durante a gestão do governo Bolsonaro. Ao visualizar, por exemplo, os #elenão e #desenhospelademocracia, constatamos que essas narrativas são contínuas. Porém, essas hashtags vão mudando de significado, viralizaram e adquirem uma conotação mais contestatória e documental (e menos gráfica, relacionada ao evento ou ao ato político específico relacionada à sua criação). Essas hashtags lideravam a produção de designers, ilustradores e artistas durante o primeiro e segundo turno e, após a eleição, tornaram-se uma legenda default, um padrão em qualquer post contra a gestão Bolsonaro.
As hashtags mais populares, com maior número de postagens são #elenão e #mariellepresente. Provavelmente por representarem muitos ativismos e serem usadas como assinatura padrão.
A seguir, veremos como se dá a mobilização dos designers brasileiros em torno de campanhas ativistas produzidas em todo o Brasil durante a campanha eleitoral de 2019.
Designers ativistas: produção coletiva
As narrativas das redes não são arquivadas pelos aplicativos ou por seus autores; o post feito no calor dos acontecimentos se mistura ao fluxo midiático e o arquivo se perde ao longo do tempo.
Como vimos com Paul (2011), o deslocamento de significados de uma hashtag dissidente adquire novos significados quando deslocados para outros contextos nos quais outros usuários podem ter outro repertório cultural e motivações ativistas diferentes. Foi esse o caso de #desenhospelademocracia. Originalmente criada por um grupo de designers, artistas, professores universitários e um ciclo razoavelmente pequeno de 79 integrantes em um grupo de WhatsApp (criado em 10 de outubro de 2019), a hashtagpretendia organizar as pautas a partir das promessas de campanha anunciadas pelo então candidato Jair Bolsonaro. Essas se organizavam em torno de temas como educação, uso de armas, democracia/fascismo, meio-ambiente, e se propunham a virar o voto de eleitores indecisos entre o primeiro e segundo turno. Interessante notar que no dia da manifestação nacional (29 de outubro de 2018) apenas cinco imagens foram postadas com essa hashtag o que mostra que sua criação não ocorreu de forma espontânea, mas sim como um movimento de um grupo em reação à campanha bolsonarista até o dia das eleições. Foi uma ação planejada e pautada. O que possibilitou um resultado estético mais apurado. Alguns artistas e coletivos trabalharam em posts sequenciais na mesma linguagem visual, conferindo uma identidade própria e mais autoral às imagens-mensagens.


Esta sequência narrativa, extraída da #desenhospelademocracia, utiliza-se de estratégias usadas nas ilustrações digitais vetorizadas. Se baseia na composição figura e fundo. A silhueta da figura humana aparece em alto contraste e parece ser retirada de uma fotografia; os fundos em cores cítricas e o uso de gradiente conferem um caráter digital e contemporâneo ao trabalho.

Essa série do coletivo Bijari segue um projeto gráfico inspirado nos cartazes suíços dos anos 50 e da arte concreta brasileira, nos quais a tipografia e a linguagem verbal e a sintaxe visual das formas geométricas configuram como elementos principais.

O trabalho de ilustração digital da ilustradora recifense Lucia Colera remete à xilogravura, técnica reprodutiva utilizada nos anos 60 nas artes gráficas. O trabalho figurativo com imagens bidimensionais remete às ilustrações do artista J. Borges para a literatura de cordel.
Observa-se a qualidade gráfica dessas imagens produzidas por artistas e designers organizados nessa ação coletiva veiculada especificamente para as redes. Essa hashtag ganhou força e foi adotada por muitos usuários. Entretanto, quando as eleições acabaram, ganhou outra conotação. O grupo original composto por designers e artistas que produziam as imagens a partir das pautas da campanha “Vira voto” diminuiu sua participação dissidente. E a disseminação do uso da #desenhospelademocracia por “desenhistas” (ao pé da letra) que se apropriaram da hashtag para publicar seus trabalhos e mensagens ativistas contribuiu para o aumento do número de postagens com essa hashtag, gerando um deslocamento de significados relacionados à pauta ativista [Sidenote: 5. Ver no Calendário Dissidente as narrativas da #desenhospelademocracia dos meses de janeiro a março. ] . Ou seja, a própria lógica de deslocamentos das redes muda pode alterar o significado da mensagem de uma narrativa visual constituída por uma hashtag.

Pauta nacional: o coletivo Design Ativista
Examinando outra hashtag da nossa coleta de dados, a #desenhoativista, vimos acontecer a ascensão numérica de postagens e a adesão nacional a este coletivo. Criada pelos designers ligados ao Mídia Ninja – grupo de jornalistas independentes conhecidos pelo uso de diferentes plataformas, com coberturas streaming nas redes sociais e no site do grupo –, o coletivo se tornou uma referência nacional e internacional para designers, para o público e simpatizantes da linguagem visual dissidente das redes.
Se compararmos à tela principal (o feed) da página de outubro de 2018 com o atual, vemos que a qualidade se manteve e a diversidade e o número de artistas ampliou mais de 6 vezes: 3.000 seguidores em outubro de 2018 e 20.900 seguidores em janeiro de 2020 (ver calendário dos meses janeiro, fevereiro e março da #designativista). Essa hashtag dissemina o vocabulário estético remixado das ilustrações digitais das redes, como podemos verificar abaixo:

A disseminação de uma hashtag está associada à lógica do tagueamento e à adesão dos usuários que se identificam com determinada causa. Neste caso, além da adesão orgânica da hashtag por ilustradores e designers, o coletivo que ativa a #designativista liderou uma pauta, criando também outras estratégias de comunicação para disseminar sugestão de conteúdos que poderiam se tornar imagens-mensagens dissidentes frente ao governo Bolsonaro. O grupo de WhatsApp de 137 participantes, criado em 30 de dezembro de 2018, construiu por meio das suas páginas no Facebook e no Instagram uma comunidade de designers e estudantes de todo o Brasil. Todos os participantes e organizadores são colaboradores voluntários e o Encontro do #designativista em 2019 reuniu cerca de 1.000 participantes em 4 dias de palestras, workshops e apresentações de 50 designers e ativistas, como o designer e ilustrador Cris Vector (@crisvector); a designer Horrana Porfirio Soares (@honporfirio) com “Cadê os pretos no design?”; o publicitário (@spartakus) com “Racismo visível”; Thereza Nardelli (@zangadas_tatu) com “Memes e anti memes”; o designer do coletivo Bijari Rodrigo Araujo (@rodrigo_araujox) com “Ativismo gráfico e vocabulário combativo”; Pedro Inoue (@pedroinoue), diretor de arte da revista ativista canadense Adbuster, com “A guerra dos memes”; Rodrigo Pimenta (@pimentarodrigo) com “Ativismo na MTV”; e a designer gráfica Mariana Bernd (@maribernd) com “Sexo mentiras e silvertapes”, entre outros.
Pela diversidade dos palestrantes e temas, é possível ter uma ideia de como o design dissidente é pauta para muitos coletivos, ativistas, profissionais, estudantes de faculdades de design e de publicidade etc., que atuam em diferentes contextos sociais e culturais, em todo o Brasil, e usam de diferentes estratégias de criação e produção.

Fonte: arquivo pessoal
Pantone Político: estéticas pandêmicas
O Pantone Político é um projeto que joga luz (e cor) ao apocalipse político e pandêmico desde 2020 e busca combater as fake news disseminadas pelas redes bolsonaristas informando a população sobre a situação da covid-19 no Brasil. O site 24 horas divulga dez cards com as dez notícias “de verdade” que tiveram mais engajamento no Twitter.
Este experimento gráfico foi criado na linha What design can do [Sidenote: 10. What design can do é uma fundação internacional que busca acelerar a transição para uma sociedade sustentável, justa e usando o poder do design. Sediada em Amsterdam, foi fundada pelos designers Richard van der Laken e Pepijn Zurburg, em 2011. Está presente globalmente em São Paulo, Cidade do México, Tóquio, Delhi, Nairobi e Amsterdam e busca acelerar a transição para uma sociedade sustentável, justa e usuária do poder do design.] (o que o design pode fazer) em tempos pandêmicos, dentro de um contexto no qual o governo brasileiro sustentava um posicionamento negacionista frente ao vírus e à eficácia da vacina. E a velocidade das notícias sobre cuidados e prevenção da doença confundiam a população e dificultava o acesso às notícias fidedignas sobre a covid-19, até então conhecida como o novo coronavírus da China. O projeto do site utiliza-se do design da informação para organizar o emanharado de notícias esparsas de forma mais legível e convidativa.
Além da falta de notícias referentes à prevenção e ao combate ao coronavírus, as notícias sobre se misturavam às medidas políticas catastróficas do governo Bolsonaro, em todas as áreas de atuação: saúde, economia, educação, segurança pública, direito humanos, cidadania, etc. Pelo fato da comunicação bolsonarista ter utilizado estratégias de disseminação de fake news para diminuir a gravidade da covid-19, referindo-se ao vírus como se fosse uma “gripezinha”, a população foi prejudicada, sobretudo a parte mais vulnerável, que muitas vezes não tem acesso aos veículos de comunicação confiáveis e se informa via redes de amigos no WhatsApp, Instagram, Facebook e Youtube.
A cobertura da mídia nacional e internacional “mainstream“, impressa, televisiva ou on-line, em que mensagens textuais e visuais apresentaram um presidente-personagem caricato, construído a partir de apropriações estéticas ditatoriais, que atua sob um lema positivista de que “o Brasil não pode parar”, onde se considerava o messias salvador. Para além das questões de saúde (o país estava há quinze dias sem ministro da saúde e é recordista de mortes diárias e o terceiro país do mundo com mais óbitos), o retrocesso nas áreas ambientais, econômicas, de direitos humanos, civis e jurídicos é incalculável (dado que não temos informações fidedignas). Assim como a militarização de alguns setores do governo, com adoção de estratégias de segurança e quebra de protocolos sobre informações privilegiadas.
Confinamento e produção de linguagem
O período de confinamento representou uma outra vivência no tempo e espaço na qual os quinze dias de quarentena se estenderam por mais de um ano. Peter Pál Pelbart (2018) recorre ao termo “emaranhado do tempo” para falar sobre nossa experiência em rede. E essa expressão nunca foi tão adequada para caracterizar o embaralhamento do volume de notícias acerca da pandemia e o embaralhamento dos dias da semana e meses, uma vez que, em um primeiro momento, muitas atividades acadêmicas e profissionais foram paralisadas por conta do desconhecimento e dos cuidados a serem tomados com a pandemia.
Não havia um serviço de informação de massa sobre questões sanitárias, prevenções, um lugar onde poderia ler-se as principais notícias filtradas por fontes fidedignas. A criação do experimento Pantone Político nasceu desta conjuntura. Foi uma experiência criativa catártica, durante os primeiros meses de confinamento.
Design set: do Twitter para os cartões Pantone
Concebido inicialmente para o Instagram, o Pantone Político foi publicado na @pantonepolítico por dois meses. Incluí na minha rotina pandêmica a edição das principais notícias do dia, extraídas de vàrias fontes, e a diagramação em uma escala de posts previamente preparados com os fundos coloridos pela escala Pantone. Toda a operação levava em torno de duas horas.
Devido à velocidade e ao volume de acontecimentos diários, à impossibilidade de automação dos posts no Instagram e à percepção de que o projeto poderia sair da bolha dos meus seguidores da rede para atingir realmente quem mais precisava se informar, me desafiei a criar um calendário on-line, migrar o projeto para um site em uma versão streaming. Esta versão sofreu várias adaptações de layout para que a edição pudesse ser maquínica, 100% automatizada.
Primeiramente, criamos um algoritmo para extrair as notícias mais tuitadas e compartilhadas dos seguintes veículos: @folha, @uol, @estadao, @estadaopolitica, @midianinja, @elpais_brasil, @JornalOGlobo, @TheInterceptBr, @canalmeio, @CNNBrasil.
Na paralela, selecionamos as palavras-chaves vinculadas à covid e à gestão Bolsonaro.
O volume de dados extraídos do Twitter para uma versão 24h, atualizada a cada duas horas, foi boloqueado pela própria plataforma, por medida de segurança. O que me levou à solicitação de um pedido de autorização para obter uma licença de pesquisadora acadêmica, uma Interface de Programação da Aplicação Acadêmica (API). Com esta API, conseguimos o download de um grande volume de dados a serem usados exclusivamente em pesquisas no campo do design de comunicação, sem fins lucrativos. O processo de licença de uso dessa ferramenta exigiu comprovação da pesquisa e o preenchimento de formulários detalhados que justificassem a requisição.
O detalhamento dessa experiência é valido, na medida em que apresenta uma situação na qual o designer e pesquisador se submete à revisão dos objetivos do experimento. E este é verificado por outras instâncias, no caso o Twitter. Este episódio só fortalece a ideia de que a pesquisa acadêmica nesse campo tem de ser colaborativa e depende de outros atores para evoluir e acontecer. [Sidenote: 11. A realização do site se deu durante a residência no GAIA. A criação de um script próprio com todos os parâmetros para a seleção e extração das notícias foi realizada pelos cientistas de dados (Vinícius Imaizumi e Vinicius Ariel dos Santos, alunos da POLI-USP e pesquisadore do Inova USP).] Essa conquista fez com que o projeto fosse impulsionado qualitativamente e quantitativamente a outro patamar de mineração de dados retroativos e em tempo real. Nosso uso da API foi bastante restrito às possibilidades oferecidas, mas conseguimos organizar o calendário retroativo, partindo da data de 1 de junho como nosso marco zero do Pantone Político streaming.
Outra constatação importante é que a partir do momento em que utilizamos o Twitter como fonte da notícia, assumimos a participação política dos usuários desta rede e o caráter colaborativo que a caracteriza, no engajamento e na distribuição dos acontecimentos em tempo real. Como esta versão é isenta da edição humana, as notícias mais tuitadas muitas vezes podem ser mais opinativas, o que confere o caráter dissidente do Pantone Político.
Pantone como jogo de linguagem
Por meio da metonímia, o projeto propõe um jogo entre o factual e a estética da cultura visual digital. A escala Pantone é usada para modificar a figura da notícia, substituindo o suporte visual e jornalístico dos meios de comunicação e a identidade visual do Twitter por outro elemento (o cartaz com a manchete) com o qual passa a ser relacionada (Jardi, 2014).
A partir de Grusin (2020), podemos dizer que este recurso metonímico aplicado à imagem no design é resultado do uso de objetos cotidianos associados a movimentos políticos de resistência que operam como mediações radicais que catalisam ou agregam um agenciamento dissidente. Essa operação de linguagem não busca produzir significado sobre as reivindicações desses movimentos de forma literal, não operam como metáfora, mas funcionam como imagens mediadoras, ou melhor, imagens metonímicas. Representa de uma forma original o papel do design de comunicação nas redes. Divulga de forma lúdica, as notícias sobre a pandemia.
Os títulos, pílulas tipográficas, são compostos na fonte Roboto Slab Bold – web fonte open source, disponível na Google Fontes e Adobe Fonts. Projetada por Christian Robertson, em 2013, para o sistema operacional da Google, esta família tipográfica é caracterizada como grotesque, possui serifas largas (gregas), que conferem boa legibilidade para títulos de publicações editoriais on-line.
No site, as dez manchetes com mais engajamento, são deslocadas para os cartões coloridos, dispostos sequencialmente em tonalidades cromáticas apropriadas da escala de cores Pantone – referência estética para se falar de cor no mundo do design, moda e comunicação. Essas notícias, “embelezadas”, congeladas e plasmadas nos cartões coloridos tem também o objetivo de arquivar as notícias deste período nebuloso. As notícias coloridas, estetizadas por meio da escala Pantone, são mais um exemplo de design dissidente e do uso estratégico de inteligência artificial para fins artísticos e curatoriais (MANOVICH, 2018).
A série é um registro da memória gráfica da política brasileira, na ordem cronológica dos fatos, e contribui de forma criativa, com seu papel social de informar. O Pantone Político tem o potencial de alcançar a população em geral, a qualquer usuário da internet e das redes sociais, por meio do design.


Os cards também saíram das telas e foram para as ruas. Foram projetados em interfaces urbanas pelo coletivo @projetemos e funcionam como mídia para divulgar os acontecimentos políticos. “A empena foi convertida na nova ágora dos tempos da coronavida. O confinamento deu vazão a outras formas de ativismo e as estéticas construídas através das janelas”, diz Beiguelman sobre as estéticas emergentes da pandemia (BEIGUELMAN, 2021, p. 9-10).

O projeto gráfico do Pantone Político é adaptado da estrutura do Calendário Dissidente. No cabeçalho de ambos os sites há um botão de acesso ao outro calendário. As conexões entre os dois experimentos também formam um jogo de linguagem de ler pelas imagens e ver pelas palavras. As manchetes publicadas nos cards pautam as peças gráficas publicadas no Calendário Dissidente.
A experiência de visualidade e de informação se complementam e representam operações de linguagens nas quais o uso de IAs é fundamental para a criação, edição e arquivamento dos artefatos gráficos, peças da memória gráfica e política brasileira.
Na galeria Uso de IA para fins artísticos e curatoriais publicamos outros trabalhos relacionados aos experimentos, possibilitando outras reflexões críticas sobre a cultura visual digital, política de dados e dissidência política.